O itinerário quaresmal alcança, no 5º Domingo, um ponto culminante de preparação para o Mistério Pascal. A Liturgia da Palavra deste dia (Ezequiel 37,12-14, Salmo 129(130), Romanos 8,8-11 e João 11,1-45), oferece uma progressiva e coerente revelação do Deus da vida, que intervém na história humana para libertar, restaurar e conduzir à plenitude.
O relato da ressurreição de Lázaro, no Evangelho segundo João, constitui o eixo da reflexão de toda a liturgia, iluminando as demais leituras e revelando a ação salvífica de Deus como verdadeira passagem da morte à vida. Este sinal não é apenas um prodígio extraordinário, mas uma manifestação antecipada da Páscoa de Cristo, fundamento da esperança cristã.
A promessa de vida no contexto da morte
A profecia de Ezequiel 37,12-14 insere-se no drama do exílio babilônico, experiência de desolação e “morte” coletiva do povo de Israel. A imagem das sepulturas abertas expressa a soberania de Deus que recria e restitui a vida ao seu povo: “Porei em vós o meu espírito, para que vivais” (Ez 37,14).
Teologicamente, evidencia-se a centralidade do Espírito como princípio vital e restaurador. A vida nova não é conquista humana, mas dom gratuito de Deus. À luz dessa Palavra, a ação pastoral da Igreja é chamada a tornar visível essa esperança nas realidades marcadas pela morte social, falta de moradia, exclusão e desânimo, anunciando que Deus continua abrindo sepulturas na história.
A espiritualidade da espera e da confiança
O Salmo 129(130) traduz a atitude interior do povo que, do fundo de sua miséria, clama ao Senhor: “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor”. Trata-se de uma oração penitencial que une reconhecimento do pecado e confiança na misericórdia.
A imagem do vigia que espera pela aurora (cf. Sl 129,6) revela uma esperança vigilante e perseverante. Esta é a espiritualidade própria da Quaresma: uma espera ativa, sustentada pela certeza de que “no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção” (cf. Sl 129,7).
Como recorda Papa Francisco, a esperança cristã não nega a escuridão, mas se firma na fidelidade de Deus, que nunca abandona o seu povo, mesmo nas noites mais densas da existência.
A vida segundo o Espírito
Na carta aos Romanos 8,8-11, São Paulo apresenta uma profunda antropologia teológica, marcada pela oposição entre “carne” e “Espírito”. Viver segundo a carne significa fechar-se à graça; viver segundo o Espírito é deixar-se habitar por Deus.
O apóstolo afirma: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, então aquele que ressuscitou Cristo Jesus vivificará também os vossos corpos mortais” (Rm 8,11). Esta afirmação fundamenta a esperança cristã na ação atual do Espírito Santo, que já opera no presente a vida nova da ressurreição.
Pastoralmente, isso implica promover um caminho de fé que conduza à experiência concreta do Espírito, superando uma religiosidade meramente formal e favorecendo uma vida transformada pela graça.
Jesus, a Ressurreição e a Vida
O Evangelho de João 11,1-45 apresenta uma das mais altas revelações cristológicas: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Em Jesus, a vida divina entra na história e confronta o drama da morte.
Três dimensões merecem destaque:
Desatai-o e deixai-o caminhar (Jo 11,44)
A ordem final de Jesus introduz uma dimensão eclesial essencial: a vida nova, embora seja dom de Deus, requer a mediação da comunidade. Cabe à Igreja colaborar na libertação integral da pessoa, ajudando-a a remover tudo aquilo que ainda a prende à morte.
Essa missão encontra profunda ressonância no magistério do Papa Francisco, que insiste na necessidade de uma Igreja “em saída”, próxima das feridas humanas e comprometida com a dignidade da vida.
Pastoralmente, isso se concretiza em:
A unidade das leituras deste domingo oferece uma síntese luminosa da esperança cristã: Deus é aquele que abre sepulturas (cf. Ez 37), escuta o clamor do seu povo (cf. Sl 129), comunica o seu Espírito (cf. Rm 8) e, em Cristo, chama à vida nova (cf. Jo 11).
A ressurreição de Lázaro não é apenas memória de um milagre passado, mas anúncio de uma realidade presente: Cristo continua a chamar cada pessoa e cada comunidade — “Vem para fora!” (Jo 11,43).
Assim, a Quaresma revela-se como tempo privilegiado de conversão e renovação, no qual o Espírito Santo conduz o povo de Deus da morte à vida, da escuridão à luz, da desesperança à confiança.
Como afirma o Papa Francisco, “a ressurreição de Cristo contém uma força de vida que penetrou o mundo” (Evangelii Gaudium, 276). É essa força que sustenta a missão da Igreja e renova continuamente a esperança do povo de Deus.
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
18 de março de 2026
Referências Bibliográficas
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. Brasília: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, 2019.
Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Vaticano, 2013.
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Missal Romano. 3. ed. típica para o Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2019.
Por: Daiane Sales – Assessoria de Comunicação