Porto Velho, sábado, 28 de março de 2026

28/03/2026 .

Entre o “Hosana” e a Cruz um Caminho de Discipulado – Reflexão para Domingo de Ramos (Ano A)

O Domingo de Ramos inaugura solenemente a Semana Santa, conduzindo os fiéis ao centro do mistério cristão: a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. A liturgia evidencia um contraste marcante entre a aclamação jubilosa: “Hosana ao Filho de Davi!” (Mt 21,9) e a condenação, “Seja crucificado!” (Mt 27,23).

Tal contraste não se restringe a um evento histórico, mas revela a dinâmica do coração humano, marcado pela fragilidade e pela constante necessidade de redenção.

O Messias humilde: realeza na lógica do serviço

A entrada de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11) manifesta uma realeza distinta das expectativas humanas. Montado em um jumentinho, Cristo cumpre a profecia de Zacarias (cf. Zc 9,9), revelando uma realeza fundada na mansidão e no serviço. Nesse horizonte, destaca-se a reflexão do Papa Francisco: “Jesus entra em Jerusalém para morrer na cruz e assim cumprir a missão de amor que o Pai lhe confiou” (FRANCISCO, 2013). A realeza de Cristo manifesta-se, portanto, na doação total de si.

O Servo Sofredor: obediência e fidelidade

A primeira leitura (Is 50,4-7) apresenta a figura do Servo Sofredor, que acolhe o sofrimento com confiança em Deus: “Ofereci as costas para me baterem…” (Is 50,6).

Esse texto encontra sua plenitude em Cristo, cuja obediência não é passiva, mas expressão de amor fiel. Tal perspectiva ilumina também a vida comunitária, frequentemente marcada por desafios, exigindo perseverança e confiança em Deus.

A kenosis de Cristo: o amor que se esvazia

O hino cristológico de Filipenses (Fl 2,6-11) apresenta o núcleo da fé cristã a kenosis: Cristo “esvaziou-se a si mesmo” (Fl 2,7). A kenosis de Cristo é o esvaziamento voluntário de Jesus, que, sem deixar de ser Deus, assume a condição humana e se humilha por amor, até a morte de cruz, para a salvação da humanidade.

A kenosis revela que a cruz não é fracasso, mas a expressão máxima do amor. Como afirma Bento XVI: “Jesus redefine o conceito de realeza: Ele não vem com poder terreno, mas com a humildade de Deus, que é o amor até o fim” (BENTO XVI, 2011). Desse modo, o mistério da cruz torna-se paradigma do discipulado.

A Paixão segundo Mateus: espelho da condição humana

O relato da Paixão (Mt 27. 11 -54) apresenta diversas atitudes humanas:

  • traição (Judas);
  • negação (Pedro);
  • abandono (discípulos);
  • condenação (autoridades e multidão).

No centro da narrativa está o silêncio de Jesus (cf. Mt 27,14), expressão de sua entrega total ao Pai. Assim, a Paixão não é apenas um evento histórico, mas um espelho da realidade humana, marcada por contradições.

O grito da cruz: dor e confiança

O clamor de Jesus: “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46), expressa a profundidade da dor humana assumida por Cristo. Entretanto, trata-se de uma oração que remete ao Salmo 22, culminando na confiança em Deus. A cruz revela, portanto, que o sofrimento pode ser transformado em entrega e esperança.

A Palavra de Deus, quando verdadeiramente escutada, conduz necessariamente à prática pastoral comunitária. O Domingo de Ramos interpela os fiéis a uma vivência autêntica da fé, que se concretiza em:

  • participação ativa no Tríduo Pascal;
  • valorização da Eucaristia;
  • busca do sacramento da reconciliação;
  • intensificação da oração;
  • Amor e cuidado com os mais fragilizados nas periferias reais e existenciais.

A Semana Santa deve ser compreendida como um caminho interior de conversão, e não apenas como uma celebração externa. O itinerário do Domingo de Ramos conduz do entusiasmo inicial à fidelidade madura. O discípulo é chamado a não permanecer apenas na aclamação, mas a seguir Cristo no caminho da cruz. Assim, a profissão de fé: “Jesus Cristo é o Senhor” (Fl 2,11), deve ser confirmada pela vida, no testemunho cotidiano de amor e fidelidade.

Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
29 de março de 2026

POEMA DA REFLEXÃO

Entre o Hosana e o Silêncio

Há um caminho de ramos
que, sem perceber,
termina na cruz.

A mesma voz que aclama
é também a que condena.
E o coração humano…
vacila.

Hoje, “Hosana!”
Amanhã, o abandono.

E eu?
Sou louvor que permanece
ou silêncio que foge?

Ele vem na humildade,
vence sem força,
insiste no amor.

Mas amar…
exige ficar.
E permanecer
dói.

Há um jardim de medo,
um beijo que trai,
um Deus que silencia.

E, no entanto,
é no silêncio
que o amor grita mais alto.

Na cruz,
a dor se faz entrega,
o abandono, oração.

Ali, onde tudo parece fim,
nasce um novo olhar.

Ser discípulo, talvez,
seja isso:
não mudar de lado
quando a multidão muda.

É permanecer com Ele
na luz
e na sombra.

Porque entre o Hosana
e o silêncio,
há um Deus que permanece…
e espera.

Pe. Geraldo Siqueira

 

Referências

BENTO XVI. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Brasília: CNBB, 2018.

FRANCISCO. Homilia do Domingo de Ramos, 24 mar. 2013. Vaticano.

 

Por: Daiane Sales – Assessoria de Comunicação

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