A celebração do Domingo da Páscoa constitui o núcleo da fé cristã. A Ressurreição de Cristo é o fundamento sobre o qual se sustenta toda a teologia e a vida da Igreja. A liturgia deste dia, rica em símbolos, não apenas recorda um acontecimento passado, mas torna presente, de modo sacramental, o Mistério Pascal, atualizando-o na vida e na missão da Igreja.
A leitura dos Atos dos Apóstolos apresenta o discurso de Pedro na casa de Cornélio, considerado um dos mais antigos resumos do querigma cristão. Nele, aparecem os elementos centrais da fé: a vida pública de Jesus, sua morte na cruz e, sobretudo, sua Ressurreição, realizada por Deus.
A afirmação: “Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10,40) evidencia a ação decisiva de Deus na história, confirmando a identidade de Jesus e inaugurando uma nova realidade de vida. A Ressurreição não é apresentada como mito ou símbolo, mas como um acontecimento histórico-salvífico testemunhado: “nós, que comemos e bebemos com Ele” (At 10,41). Trata-se, portanto, de uma experiência concreta que fundamenta a missão evangelizadora da Igreja.
O texto também destaca a dimensão universal da salvação: “todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados” (At 10,43). Assim, a Ressurreição inaugura um horizonte de reconciliação que ultrapassa todas as fronteiras étnicas e religiosas.
O Salmo responsorial insere a assembleia na dinâmica celebrativa da Páscoa: “Este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 117/118,24). A liturgia reconhece a Ressurreição como o “dia” por excelência, isto é, o tempo novo inaugurado pela ação salvadora de Deus.
A imagem da “pedra rejeitada”, que se torna “pedra angular” (Sl 117/118,22), adquire, à luz do Novo Testamento, um claro sentido cristológico. Aquele que foi rejeitado e crucificado torna-se o fundamento de uma nova construção: a comunidade dos crentes. O salmo expressa, portanto, a passagem da morte para a vida, do fracasso à vitória, configurando-se como um hino de louvor e de reconhecimento da fidelidade de Deus.
A segunda leitura apresenta as consequências existenciais da Ressurreição. Em Cl 3,1-4, o apóstolo Paulo exorta os cristãos a orientarem a sua vida a partir da realidade pascal: “aspirai às coisas do alto”. A Ressurreição não é apenas uma verdade a ser crida, mas um princípio vital que transforma a existência.
A expressão: “vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3) indica a nova condição do cristão, cuja plenitude ainda se manifestará escatologicamente. A vida cristã é marcada, assim, pela tensão entre o “já” da salvação realizada em Cristo e o “ainda não” de sua plena consumação.
O relato do Evangelho de João apresenta o túmulo vazio com forte densidade teológica. Maria Madalena, Pedro e o discípulo amado representam diferentes etapas do itinerário da fé. O dado central não é ainda uma aparição do Ressuscitado, mas a ausência do corpo de Jesus, interpretada à luz da fé. A afirmação: “ele viu e acreditou” (Jo 20,8) indica o surgimento da fé pascal a partir de sinais.
O discípulo amado, figura paradigmática do crente, reconhece no túmulo vazio o início do cumprimento das Escrituras (cf. Jo 20,9). O texto sugere que a fé na Ressurreição não se impõe como evidência imediata, mas nasce de um processo de compreensão progressiva e adesão ao mistério revelado.
A unidade das leituras converge para afirmar a Ressurreição como fundamento da esperança cristã. Em um contexto marcado por crises e incertezas, o anúncio pascal proclama que a morte não tem a última palavra.
O magistério do Papa Francisco retoma essa verdade com força ao afirmar: “A Ressurreição de Cristo é a nossa esperança mais profunda: nada está perdido, tudo pode ser recomeçado com Ele” (Mensagem Urbi et Orbi, Páscoa). Em outra ocasião, ensina: “A esperança cristã não é um otimismo superficial, mas um dom de Deus que enche a vida” (Evangelii Gaudium, n. 86).
A esperança pascal não é evasiva, mas transformadora. Ela impulsiona o compromisso com a justiça, a solidariedade e a promoção da vida. Trata-se de uma esperança vivida na história, sustentada pela certeza da vitória definitiva de Cristo sobre o pecado e a morte. A liturgia do Domingo da Páscoa oferece uma síntese rica e articulada do mistério cristão. A partir do querigma apostólico, do louvor do salmo, da exortação paulina e do testemunho evangélico, evidencia-se a centralidade da Ressurreição como evento fundante da fé.
A Páscoa revela-se, assim, como princípio de vida nova e fonte de esperança para a Igreja e para o mundo. Em Cristo ressuscitado, a humanidade encontra não apenas sentido, mas também a possibilidade concreta de renovação. A teologia pascal, portanto, não se limita à reflexão teórica, mas interpela a vida dos fiéis, chamando-os a viver como testemunhas da vida nova inaugurada por Deus.
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
02 de março de 2026
Referências Bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2018.
FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2013.
FRANCISCO, Papa. Mensagem Urbi et Orbi – Páscoa. Vaticano.
MISSAL ROMANO. 3ª edição típica para o Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2023.
Por: Daiane Sales – Assessoria de Comunicação