A liturgia do 10º Domingo do Tempo Comum – Ano A nos apresenta uma das mensagens centrais de toda a Sagrada Escritura: Deus deseja a misericórdia e o amor mais do que práticas religiosas realizadas apenas exteriormente. A afirmação do profeta Oséias: “Quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6), ilumina todas as leituras deste domingo e é retomada pelo próprio Jesus no Evangelho (Mt 9,13).
As leituras revelam um Deus que deseja estabelecer uma relação de amor, proximidade e comunhão com seu povo. Elas mostram que a verdadeira religião não se reduz ao cumprimento de normas ou à realização de ritos, mas nasce de um coração convertido e aberto à ação de Deus. Ao mesmo tempo, apresentam a fé de Abraão como modelo de confiança na promessa divina e a vocação de Mateus como sinal da misericórdia que transforma a vida dos pecadores.
A partir dessas leituras, somos convidados a refletir sobre três aspectos fundamentais da vida cristã: a misericórdia como expressão do amor de Deus, a fé como resposta humana à sua iniciativa e a vocação como fruto da graça que renova a existência.
A crítica profética ao ritualismo religioso
A primeira leitura, retirada do livro do profeta Oséias 6,3-6, foi escrita em um período de profunda crise religiosa em Israel. O povo continuava oferecendo sacrifícios no templo, mas sua vida estava distante da vontade de Deus. Havia culto, mas faltavam justiça, fidelidade e amor ao próximo.
Por isso, o Senhor declara:
“Quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6).
Deus não rejeita o culto em si mesmo. O que Ele condena é um culto vazio, sem conversão e sem compromisso com a vida. O profeta ensina que as práticas religiosas somente têm valor quando são acompanhadas por uma existência coerente com a fé professada.
A verdadeira religião não consiste apenas em rezar, frequentar celebrações ou cumprir obrigações religiosas, mas em viver o amor de Deus nas situações concretas da vida.
O conhecimento de Deus como experiência de comunhão
Oséias também afirma: “Quero conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6).
Na linguagem bíblica, conhecer não significa apenas adquirir informações ou possuir conhecimentos intelectuais. Conhecer Deus é entrar em comunhão com Ele, acolher sua Palavra e permitir que sua presença transforme a própria vida.
A fé bíblica não se reduz à aceitação de algumas verdades religiosas, mas consiste em uma relação viva e pessoal com o Senhor. Por isso, a espiritualidade cristã não pode limitar-se a práticas externas. Deus deseja ser conhecido e amado de todo o coração.
A oração, os sacramentos e a participação na vida da Igreja devem conduzir a um encontro pessoal e transformador com Jesus Cristo.
A fé de Abraão: acreditar contra toda esperança
Na segunda leitura (Rm 4,18-25), São Paulo apresenta Abraão como modelo de fé.
Mesmo sendo idoso e sem filhos, Abraão acreditou na promessa de Deus:
“Esperando contra toda esperança, acreditou” (Rm 4,18).
Humanamente, tudo parecia impossível. No entanto, Abraão confiou na fidelidade do Senhor. Sua esperança não estava fundamentada nas circunstâncias, mas na Palavra de Deus.
São Paulo utiliza a figura de Abraão para ensinar que a salvação é um dom gratuito da graça divina. Ninguém se salva por seus próprios méritos. Somos justificados pela fé naquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos.
O Concílio Vaticano II recorda:
“A Deus que revela é devida a obediência da fé, pela qual o homem se entrega total e livremente a Deus” (Dei Verbum, 5).
Abraão é o exemplo dessa entrega confiante. Sua fé antecipa a fé cristã, fundamentada na morte e ressurreição de Jesus.
A vocação de Mateus: a misericórdia que transforma
O Evangelho narra o chamado de Mateus (Mt 9,9-13). Ele era cobrador de impostos, profissão desprezada pelos judeus por estar associada à corrupção e à colaboração com o Império Romano.
Entretanto, Jesus não olha para o passado de Mateus. Ele vê possibilidades onde os outros enxergam apenas pecado. Por isso, dirige-lhe um convite simples e transformador:
“Segue-me” (Mt 9,9).
Esse chamado revela uma verdade fundamental: Deus toma sempre a iniciativa. Antes de qualquer mérito humano, existe a graça divina.
Mateus não conquista sua vocação; ele a recebe como um dom. Sua resposta nasce do encontro com o olhar misericordioso de Cristo.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“A preparação do homem para acolher a graça já é obra da graça” (CIC, 2001).
Toda vocação cristã nasce desse encontro entre a iniciativa amorosa de Deus e a resposta livre da pessoa humana.
Jesus e os pecadores: o rosto misericordioso do Pai
Após chamar Mateus, Jesus participa de uma refeição com publicanos e pecadores. Esse gesto provoca escândalo entre os fariseus.
Na cultura judaica, sentar-se à mesa com alguém era sinal de amizade, acolhida e comunhão. Ao compartilhar a mesa com os excluídos, Jesus manifesta concretamente o amor de Deus pelos pecadores.
Quando é questionado, responde:
“Os que têm saúde não precisam de médico, mas os doentes” (Mt 9,12).
Cristo apresenta-se como o Médico Divino, aquele que veio curar as feridas da humanidade. Sua missão não consiste em condenar, mas em salvar; não em excluir, mas em restaurar a comunhão entre Deus e seus filhos.
Essa missão alcança seu ponto mais alto na cruz, onde o amor vence o pecado e a misericórdia triunfa sobre toda forma de exclusão.
A misericórdia: centro da vida cristã
Ao concluir sua resposta aos fariseus, Jesus retoma as palavras do profeta Oséias:
“Ide aprender o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’” (Mt 9,13).
Com essas palavras, Ele ensina que a misericórdia é a chave para compreender toda a sua missão.
O Papa Francisco afirma na bula Misericordiae Vultus:
“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai.”
A misericórdia não é apenas uma entre muitas qualidades de Deus. Ela revela a forma como Deus age na história e se relaciona com a humanidade.
Em Cristo, a misericórdia torna-se visível, concreta e acessível. Ele acolhe os pecadores, cura os feridos, consola os aflitos e oferece a todos a possibilidade de uma vida nova.
Considerações finais
As leituras deste domingo revelam a profunda unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Oséias proclama a superioridade da misericórdia sobre os ritos vazios. Abraão testemunha a fé que confia plenamente na promessa divina. Mateus experimenta a força transformadora da graça. E Jesus manifesta definitivamente o rosto misericordioso do Pai.
A mensagem central da liturgia pode ser resumida em uma frase: Deus deseja um coração convertido mais do que práticas religiosas exteriores; deseja filhos que o conheçam, o amem e vivam a sua misericórdia.
Por isso, a Igreja é chamada a ser sinal desse amor no mundo, acolhendo os pecadores, servindo os pobres, consolando os sofredores e anunciando que a misericórdia de Deus é sempre maior do que qualquer pecado.
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
05 de Junho de 2026
Bibliografia
BENTO XVI. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.
BÍBLIA SAGRADA. Tradução Oficial da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2018.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas; Loyola; Ave-Maria, 2013.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum. Petrópolis: Vozes, 1966.
FRANCISCO. Misericordiae Vultus: O Rosto da Misericórdia. São Paulo: Paulinas, 2015