A liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum convida-nos a refletir sobre um dos maiores desafios da existência humana: o medo. Vivemos em uma sociedade marcada por inseguranças, conflitos, crises familiares, dificuldades econômicas e incertezas quanto ao futuro. Diante dessa realidade, a Palavra de Deus proclama uma mensagem de esperança: quem confia no Senhor encontra força para permanecer firme mesmo em meio às adversidades.
As leituras deste domingo mostram que a fidelidade a Deus não elimina os sofrimentos e desafios da vida, mas oferece a certeza de sua presença amorosa e de seu constante amparo. Jeremias testemunha a experiência da perseguição sustentada pela confiança; o salmista transforma a dor em oração; São Paulo proclama a vitória da graça sobre o pecado; e Jesus exorta seus discípulos a viverem sem medo, apoiados no amor providente do Pai.
Em um mundo frequentemente dominado pela cultura do medo, a liturgia anuncia a cultura da confiança. Deus jamais abandona aqueles que nele depositam sua esperança.
Jeremias: a confiança do justo perseguido (Jr 20,10-13)
A primeira leitura apresenta uma das mais belas confissões do profeta Jeremias. Chamado a anunciar a verdade em um tempo de infidelidade religiosa e corrupção moral, ele enfrenta oposição, rejeição e perseguição.
Seus inimigos vigiam seus passos e aguardam sua queda:
“Todos os meus amigos observavam minhas falhas” (Jr 20,10).
A experiência de Jeremias continua atual. Também hoje, aqueles que procuram viver os valores do Evangelho podem enfrentar incompreensões, críticas e até hostilidade. Defender a vida, a justiça, a honestidade e a dignidade humana nem sempre é uma tarefa fácil.
Contudo, o profeta não se deixa dominar pelo medo. Sua força nasce da certeza de que Deus caminha ao seu lado:
“O Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro” (Jr 20,11).
Essa convicção transforma sua dor em esperança. Jeremias compreende que sua segurança não está em suas próprias capacidades, mas na fidelidade de Deus. Por isso, conclui sua oração com um cântico de louvor:
“Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus” (Jr 20,13).
A mensagem é clara: o sofrimento não tem a última palavra; a última palavra pertence sempre ao Senhor.
O salmo: transformar a dor em oração (Sl 68/69)
O Salmo responsorial prolonga a experiência do profeta. Trata-se da súplica de alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus:
“Por vossa causa é que sofri tantos insultos” (Sl 68,8).
A Escritura reconhece que nem todo sofrimento é consequência do pecado. Muitas vezes, a dor acompanha aqueles que procuram viver segundo a vontade de Deus.
O aspecto mais belo do salmo é a atitude do orante. Em vez de se fechar na tristeza ou no ressentimento, ele dirige seu coração ao Senhor:
“Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor” (Sl 68,14).
A verdadeira espiritualidade não consiste em ignorar a dor, mas em entregá-la confiadamente nas mãos de Deus.
Por isso, o salmo termina com uma luminosa profissão de esperança:
“Nosso Deus atende à prece dos seus pobres” (Sl 68,34).
Na linguagem bíblica, os pobres são aqueles que reconhecem sua dependência de Deus e nele colocam toda a sua confiança. É essa atitude filial que sustenta a caminhada do discípulo diante das provações.
A graça é maior que o pecado (Rm 5,12-15)
Na segunda leitura, São Paulo amplia o horizonte da reflexão ao apresentar o grande contraste entre Adão e Cristo.
Por meio de Adão, o pecado entrou no mundo, trazendo consigo a morte e a ruptura da comunhão com Deus:
“O pecado entrou no mundo por um só homem” (Rm 5,12).
Contudo, o apóstolo não se detém na realidade do pecado. Seu olhar volta-se para a obra redentora de Cristo, cuja graça supera infinitamente o mal:
“O dom ultrapassou o delito” (Rm 5,15).
Enquanto Adão simboliza a desobediência que gerou a morte, Cristo é o novo Adão que inaugura uma humanidade reconciliada com Deus.
Essa mensagem possui grande força pastoral. Muitos carregam o peso dos erros do passado, das fragilidades pessoais ou dos fracassos da vida. São Paulo recorda que nenhuma situação humana é maior do que a misericórdia divina. Em Cristo, a graça sempre tem a primazia.
A esperança cristã não se apoia nas capacidades humanas, mas na ação transformadora de Deus, que continua renovando todas as coisas.
“Não tenhais medo”: o apelo de Jesus (Mt 10,26-33)
No Evangelho, Jesus prepara os discípulos para a missão. Ele não oculta as dificuldades que encontrarão, mas oferece-lhes o fundamento da verdadeira coragem.
Por três vezes ressoa o mesmo convite:
“Não tenhais medo.”
O medo pode paralisar a fé, impedir o testemunho e enfraquecer a missão. Por isso, Jesus ensina seus discípulos a viverem na confiança.
Primeiramente, convida-os a não temer a verdade:
“Nada há de encoberto que não seja revelado” (Mt 10,26).
O Evangelho não foi dado para permanecer escondido. A Palavra recebida deve ser anunciada com coragem, clareza e transparência.
Em seguida, Jesus pede que não temam os homens:
“Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28).
Nenhuma perseguição ou oposição humana pode destruir a comunhão daqueles que pertencem a Deus. A fidelidade ao Senhor vale mais do que qualquer aprovação passageira.
Por fim, Jesus revela o motivo mais profundo da confiança cristã: o amor providente do Pai.
Utilizando a imagem dos pardais, Ele afirma:
“Nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai” (Mt 10,29).
E acrescenta:
“Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30).
Nada escapa ao olhar amoroso de Deus. Ele conhece nossas alegrias, angústias, lutas e esperanças.
Por isso, Jesus conclui:
“Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,31).
A coragem cristã nasce da certeza de sermos amados, conhecidos e cuidados por Deus.
O testemunho público da fé
O Evangelho encerra-se com um forte chamado ao testemunho:
“Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai” (Mt 10,32).
A fé não pode permanecer restrita ao âmbito privado. Ela deve manifestar-se nas escolhas diárias, na vida familiar, no ambiente de trabalho, na convivência social e no compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, solidária e fraterna.
Testemunhar Cristo não significa impor crenças, mas viver e anunciar o Evangelho com humildade, coerência e alegria.
Nesse contexto, destaca-se o exemplo do mártir Padre Nazareno Lanciotti, missionário italiano que dedicou mais de trinta anos de sua vida ao Brasil e foi beatificado em 13 de junho de 2026, em Jauru (MT). Reconhecido por sua profunda espiritualidade eucarística e mariana, pela confiança na Providência Divina e pelo incansável serviço aos mais pobres, exerceu fecundo ministério na Paróquia Nossa Senhora do Pilar, promovendo obras sociais, acolhendo os necessitados e enfrentando corajosamente situações de injustiça e degradação humana.
Em razão de seu compromisso pastoral e de sua defesa da dignidade da pessoa humana, sofreu um atentado em 11 de fevereiro de 2001 e faleceu em 22 de fevereiro do mesmo ano. Antes de morrer, perdoou seus agressores, testemunhando de forma heroica o amor cristão. Reconhecido pela Igreja como mártir, permanece como exemplo luminoso de fidelidade ao Evangelho e de entrega total a Cristo e aos irmãos.
Os santos e mártires compreenderam profundamente essa verdade: sustentados pela graça de Deus, permaneceram firmes mesmo diante das maiores provações, tornando-se sinais vivos da presença do Senhor no mundo.
Considerações finais
As leituras deste domingo formam um verdadeiro itinerário de confiança e esperança.
Jeremias ensina que Deus sustenta aqueles que sofrem por causa da verdade. O salmista recorda que o Senhor escuta o clamor dos aflitos. São Paulo proclama que a graça de Cristo é mais forte do que o pecado e a morte. Jesus assegura que o Pai cuida de cada um de seus filhos e convida seus discípulos a viverem sem medo.
Também nós somos chamados a renovar nossa confiança no Senhor. Não caminhamos sozinhos. Deus nos acompanha, fortalece nossas fraquezas, sustenta-nos nas tribulações e conduz nossos passos rumo à plenitude da vida.
A mensagem central desta liturgia pode ser resumida nesta certeza:
Quem confia em Deus não está livre das provações, mas jamais as enfrenta sozinho.
Que a Eucaristia fortaleça nossa fé, renove nossa esperança e inflame nossa caridade, para que sejamos testemunhas corajosas do Evangelho em nosso tempo.
Como nos recorda o Senhor:
“Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,31).
Pe. Geraldo Siqueira Almeida
19 de junho de 2026
Referências Bibliográficas
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