Porto Velho, 01 de setembro de 2026
Transformar Espadas em Arados (Is 2,4): O Clamor da Amazônia no Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
Queridas irmãs e irmãos,
Paz e Bem!
No dia 1º de setembro, a Igreja Católica em todo o mundo se une para celebrar o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Esta data marca o início do Tempo da Criação, um período ecumênico que se estende até 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, convocando todos os cristãos a uma profunda conversão ecológica.
Para este ano, a mensagem de Sua Santidade, o Papa Leão XIV, ressoa com uma força profética singular ao adotar o tema extraído do livro do Profeta Isaías: “Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Is 2,4).
Em um mundo ferido, o Santo Padre nos convida a lançar um olhar atento para a nossa Casa Comum, reconhecendo que o gemido da terra e o clamor dos pobres correm lado a lado.
O Vínculo entre os Conflitos Humanos e a Degradação Ambiental
Em sua mensagem, estabelece um diagnóstico claro e corajoso: as crises ecológicas e as guerras não são fenômenos isolados, mas sim os frutos amargos de uma profunda crise moral que afeta a humanidade. A ganância, a busca pelo lucro desenfreado e a cultura do descarte transformam o ambiente e o próprio ser humano em mercadorias e campos de batalha.
O Pontífice adverte que a violência das armas deixa cicatrizes que vão muito além dos campos de combate. Ela destrói ecossistemas inteiros, contamina fontes vitais de água, polui o ar e compromete a segurança alimentar de gerações futuras. Ao ferir a criação, atacamos diretamente o dom da vida que Deus nos confiou. Por isso, o chamado de Isaías para desarmar as mãos e os corações é um imperativo urgente para a sobrevivência do planeta.
O Eco Profético na Realidade de Porto Velho e da Amazônia
Para nós, que habitamos e pastoreamos na Arquidiocese de Porto Velho, o apelo do Papa não é abstrato; ele tem o rosto da nossa floresta, dos nossos rios e das nossas comunidades tradicionais, ribeirinhas e indígenas. A Amazônia tem sido, historicamente, alvo de “espadas” metafóricas e reais: o desmatamento ilegal, as queimadas que obscurecem o nosso céu, a contaminação por mercúrio e a violência decorrente dos conflitos agrários.
Transformar espadas em arados, na nossa realidade amazônica, significa:
Cuidar deste bioma e promover a dignidade dos povos que aqui vivem são duas faces da mesma missão evangélica. Não podemos professar a fé no Criador se fechamos os olhos para a destruição de Sua obra.
O Caminho da Oração e da Ação: Sementes de Paz e Esperança
O Papa Leão XIV nos lembra que, embora os desafios socioambientais pareçam gigantescos, Deus não nos deixa desamparados. A Igreja recebeu do Senhor as ferramentas da paz e da reconciliação: a verdade, a justiça, a misericórdia e o cuidado.
Como colaboradores da renovação de Deus, somos instados a passar “do deserto ao jardim, da divisão à comunhão, e da violência à paz”. A oração é o primeiro passo para essa transformação, pois ela alarga o nosso coração e converte as nossas atitudes internas.
No entanto, a espiritualidade cristã exige compromissos práticos. Mudar os nossos hábitos de consumo, combater o desperdício, apoiar políticas de preservação e educar as novas gerações para o respeito à natureza são formas concretas de liturgia diária.
Um Convite a toda a Arquidiocese
A Arquidiocese de Porto Velho convida todas as suas paróquias, áreas pastorais, comunidades, movimentos e novas comunidades a vivenciarem intensamente este Dia Mundial de Oração. Que nas celebrações litúrgicas deste período, especialmente utilizando as preces dedicadas ao Cuidado da Criação aprovadas para a nossa Igreja, possamos clamar ao Senhor pelo dom da conversão ecológica.
Que São Francisco de Assis, o padroeiro da ecologia integral, nos inspire a sermos autênticos guardiões da criação. Que as nossas comunidades na Amazônia sejam laboratórios vivos de paz, onde as espadas da ganância deem lugar aos arados da esperança e da fraternidade.
+ Dom Roque Paloschi
Arcebispo de Porto Velho