Porto Velho, 7 de setembro de 2026
Dia da Independência do Brasil
32º Grito dos Excluídos e Excluídas
Irmãs e Irmãos,
Paz e Bem!
Do Clamor de Susana ao Grito da Amazônia: Mulheres Vivas, Terra e Dignidade
No dia 7 de setembro, enquanto o país celebra a sua independência, a Igreja no Brasil, motivada pelas Pastorais Sociais e movimentos populares, é convidada a olhar para as margens da sociedade através do 32º Grito dos Excluídos e Excluídas. Sob o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e o lema deste ano, “Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania!”, somos convocados a transformar a nossa fé em compromisso social e profético.
Este chamado coincide providencialmente com a abertura do Mês da Bíblia. Em nossa caminhada eclesial, a Palavra de Deus não é um texto do passado, mas uma luz viva que ilumina as dores e as esperanças do presente. Para compreender o Grito deste ano, a liturgia nos convida a sintonizar nossos corações com uma narrativa bíblica emblemática: o clamor e a resistência de Susana, relatados no capítulo 13 do livro do Profeta Daniel.
O Grito de Susana: Contra a Violência Estrutural e o Abuso de Poder
A história de Susana nos apresenta uma mulher temente a Deus, que se torna vítima de uma cilada armada por dois anciãos e juízes do povo. Aqueles que deveriam garantir a justiça e proteger os vulneráveis usam de sua autoridade para coagir, chantagear e tentar violar o corpo e a dignidade de Susana. Diante da recusa firme dela em ceder ao pecado e ao abuso, os juízes a acusam falsamente, condenando-a à morte.
No momento mais escuro de sua provação, quando o silêncio parecia sepultar a verdade, Susana não se cala. Ela ergue a sua voz aos céus. O seu grito não é um ato de desespero, mas uma profissão de fé e soberania espiritual contra um sistema corrupto e patriarcal que tentava silenciála. Deus ouve o clamor de Susana e suscita a profecia que desmascara os opressores e salva a vida daquela mulher.
O grito de Susana ecoa através dos séculos e encontra total sinergia com o lema do Grito dos Excluídos de 2026. Ele representa o grito de tantas mulheres que, ainda hoje, continuam sofrendo diversas formas de violência, abusos de poder e tentativas de silenciamento.
Mulheres Vivas e Soberania: A Realidade na Amazônia e em Porto Velho
Trazer o lema “Mulheres vivas e soberania!” para o contexto da Arquidiocese de Porto Velho é dar rosto, nome e território a essa profecia. Na nossa realidade amazônica, a soberania e a defesa da vida caminham juntas. As mulheres — indígenas, ribeirinhas, quilombolas, extrativistas e moradoras das periferias urbanas — são, muitas vezes, as primeiras a sofrer os impactos da degradação ambiental e da ausência de direitos básicos, como a moradia digna.
A violência contra a mulher na nossa região se manifesta na alarmante estatística do feminicídio, no abuso doméstico e, também, na violência agrária. Quando a terra é devastada pelo desmatamento ou contaminada pelo garimpo ilegal, são as mães e as lideranças comunitárias que choram a falta de alimento saudável, a doença de seus filhos e a expulsão de seus territórios.
Portanto, clamar por “Mulheres Vivas” é exigir o fim de todas as formas de violência de gênero e o reconhecimento do protagonismo feminino na salvaguarda da nossa região. Clamar por “Soberania” é defender que o nosso povo e os nossos bens naturais comuns sejam protegidos da ganância predatória, garantindo que a justiça social prevaleça sobre os interesses do capital.
Terra, Paz e Moradia: Três Direitos Sagrados
O Papa Francisco insistiu incansavelmente nos três “Ts” que sustentam a dignidade humana: Terra, Teto e Trabalho. O Grito dos Excluídos assume essa bandeira ao exigir a defesa da terra, da paz e da moradia.
Em Porto Velho, a luta por moradia urbana digna é uma urgência que afeta milhares de famílias que vivem em áreas de risco ou sem saneamento básico. No campo, o direito à terra é constantemente ameaçado por conflitos que rompem a paz social. A Igreja não pode assistir a essa realidade de braços cruzados. Assim como Daniel se levantou no tribunal para defender Susana, a comunidade eclesial deve se levantar na sociedade para defender o direito dos pobres à paz e a uma vida segura.
O Compromisso da Nossa Igreja Particular
A Arquidiocese de Porto Velho reafirma o seu compromisso pastoral ao lado dos excluídos e excluídas. No dia 7 de setembro, não celebramos uma independência abstrata, mas renovamos a nossa missão de construir uma pátria onde ninguém seja descartado.
Convidamos todas as comunidades, pastorais sociais, movimentos populares e pessoas de boa vontade a se unirem nas mobilizações do Grito deste ano. Que inspirados pelo Mês da Bíblia e pelo testemunho de Susana, sejamos uma Igreja de braços abertos e voz erguida contra a injustiça. Que o Senhor da Vida converta as estruturas de opressão em espaços de fraternidade, onde a terra seja partilhada, a moradia seja um direito garantido e todas as mulheres possam viver em plena paz e soberania.
+ Dom Roque Paloschi
Arcebispo de Porto Velho
ARQUIVO: Mensagem para o Dia da Independência do Brasil – 32º Grito dos Excluídos e Excluídas