A liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma das experiências mais exigentes da vida cristã: o perdão. Perdoar não é fácil. Muitas vezes, carregamos mágoas, ressentimentos e feridas que permanecem abertas. É nesse contexto que, no Evangelho de hoje (Mt 18,21-35), Pedro pergunta a Jesus:
“Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?”
Pedro imagina que está sendo generoso ao propor até sete vezes. Jesus, porém, responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Não se trata de estabelecer uma quantidade. Jesus ensina que o perdão não pode ser limitado quando nasce de um coração que experimentou a misericórdia de Deus.
A primeira leitura (Eclo 27,33–28,9) apresenta essa mesma verdade de forma muito direta: “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo; assim, quando orares, teus pecados serão perdoados”. E acrescenta uma pergunta que continua muito atual: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?”.
É fácil pedir a misericórdia de Deus para nós. Mais difícil é oferecê-la a quem nos feriu. Queremos que Deus compreenda nossas fraquezas, mas nem sempre conseguimos compreender as fraquezas dos outros. Por isso, a Palavra de Deus nos convida a olhar para dentro e perguntar: o que ainda estou carregando no coração?
O Salmo 102(103) apresenta o rosto de Deus que devemos contemplar: “O Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso”. Ele “não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor”, pois “não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas”.
Essa é a experiência fundamental da fé: Deus é misericordioso conosco. Ele conhece nossas fraquezas, nossos pecados e nossas omissões e, mesmo assim, continua nos amando e oferecendo novas oportunidades. É justamente essa experiência que Jesus coloca no centro da parábola do Evangelho.
Um empregado tinha uma dívida enorme e não tinha como pagar. Diante de sua súplica, o patrão “teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18,27). Entretanto, ao sair dali, esse mesmo homem encontrou um companheiro que lhe devia muito menos e, em vez de agir com misericórdia, foi duro com ele e mandou prendê-lo.
Está aí a grande contradição da parábola: ele recebeu misericórdia, mas não foi capaz de oferecer misericórdia. Jesus nos mostra que não basta experimentar o perdão de Deus; é preciso permitir que esse perdão transforme nosso modo de tratar os outros.
Quem experimenta verdadeiramente a misericórdia de Deus é chamado a tornar-se instrumento de misericórdia.
Todos nós precisamos do perdão de Deus. Todos temos limites, fragilidades e pecados. Por isso, o perdão recebido deve abrir em nós um coração mais compreensivo e misericordioso. Perdoar não significa dizer que o mal não aconteceu, aprovar a injustiça ou negar a dor. Perdoar significa não permitir que o ressentimento tenha a última palavra sobre a nossa vida.
Há feridas que não desaparecem de um dia para o outro. Em algumas situações, o perdão é um caminho que precisa ser percorrido pouco a pouco. Pode começar com uma oração simples e sincera: “Senhor, eu ainda não consigo perdoar, mas quero aprender a perdoar”. Quando damos esse primeiro passo, permitimos que Deus comece a trabalhar em nosso coração.
São Paulo, na segunda leitura (Rm 14,7-9), recorda que “ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo”. Nossa vida pertence ao Senhor. “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos”, porque “Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto: para ser o Senhor dos mortos e dos vivos”.
Se pertencemos a Cristo, somos chamados a viver segundo a lógica de Cristo: amar, servir, acolher, ter compaixão e perdoar. O Evangelho nos recorda o mandamento novo: “que, também, vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. Essa é a medida do cristão: amar como Jesus amou. E o amor de Jesus passa também pelo perdão.
Por isso, a palavra final do Evangelho é tão exigente: “se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. Jesus não fala apenas de um perdão exterior ou de palavras que escondem ressentimentos. Ele fala de perdoar de coração.
Talvez esta seja uma das grandes graças que precisamos pedir neste domingo: um coração semelhante ao coração misericordioso de Deus. Um coração capaz de romper com o rancor, superar a vingança e dar passos concretos em direção à reconciliação.
Quem perdoa não apaga o passado, mas impede que o passado continue governando o presente.
Diante do altar do Senhor, podemos colocar nossas feridas, nossas mágoas e também as pessoas que nos machucaram. Podemos entregar a Deus aquilo que ainda não conseguimos resolver e pedir: “Senhor, assim como Tu tens misericórdia de mim, ensina-me a ter misericórdia dos meus irmãos. Dá-me a graça de perdoar de coração”.
Que Maria, Mãe da Misericórdia, nos ensine a acolher o perdão de Deus e a transformar nossa vida em testemunho de misericórdia.
Pe. Geraldo Siqueira Almeida
11 de setembro de 2026