As leituras deste 27º Domingo do Tempo Comum nos colocam diante de uma imagem bonita e, ao mesmo tempo, exigente: a vinha.
Na primeira leitura, o profeta Isaías 5,1-7, apresenta a vinha como uma plantação na qual o Senhor colocou todo o seu cuidado. Preparou a terra, retirou as pedras, plantou videiras escolhidas, construiu uma torre e esperou bons frutos. Porém, em vez de uvas boas, encontrou uvas selvagens.
No Evangelho, de Mateus 21,33-43, Jesus retoma essa imagem e apresenta a parábola dos vinhateiros. O proprietário confia a vinha aos trabalhadores e, no tempo da colheita, espera receber aquilo que lhe pertence. Mas os vinhateiros esquecem que a vinha não é deles. Apropriam-se dela, rejeitam os enviados do proprietário e chegam até mesmo a matar o próprio filho. Diante disso, surge uma pergunta importante para cada um de nós: que frutos estamos produzindo?
Deus nos confia a vida, a família, a comunidade, a Igreja, nossos dons, nossas responsabilidades e tantas oportunidades de fazer o bem. Nada disso existe apenas para nós. Tudo é dom e, por isso, tudo traz consigo uma responsabilidade.
O problema dos vinhateiros não foi apenas produzir maus frutos. Foi, sobretudo, esquecer que eram administradores e começar a agir como donos. Quando nós consideramos donos absolutos daquilo que recebemos de Deus, perdemos o sentido da gratidão, do serviço e da corresponsabilidade.
Essa Palavra também ilumina nossa vida comunitária. A Igreja é a vinha do Senhor. Ninguém é dono da Igreja. Nenhum ministério, pastoral, movimento ou serviço existe para si mesmo. Todos somos trabalhadores na vinha do Senhor. Por isso, a pergunta não deve ser apenas: “O que a Igreja está fazendo por mim?” Precisamos também perguntar: “Que fruto a minha presença está produzindo na Igreja e na sociedade?”
São Paulo, na Carta aos Filipenses 4,6-9, aponta um caminho muito concreto. Ele nos convida a apresentar tudo a Deus em oração, com súplicas e ação de graças. E nos pede que ocupemos o coração com aquilo que é verdadeiro, justo, puro, amável e honroso. Isso significa que não basta conhecer o Evangelho. É preciso colocá-lo em prática. A fé precisa produzir frutos.
Frutos de justiça, como nos lembra Isaías. Frutos de bondade, misericórdia, perdão, solidariedade e compromisso com aqueles que sofrem. Uma fé que não transforma nossas atitudes corre o risco de permanecer apenas nas palavras.
O Evangelho também apresenta Cristo como a pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular. Jesus é o fundamento da nossa vida e da nossa comunidade. Quando Cristo ocupa o centro, aprendemos que a vida não é posse, mas missão; não é domínio, mas serviço; não é privilégio, mas responsabilidade.
Por isso, este domingo nos convida a fazer uma revisão sincera da nossa vida e também da nossa comunidade: Que frutos Deus encontra em nós?
O Salmo 79(80) coloca uma bela e profunda oração em nossos lábios: “Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo, e sobre nós iluminai a vossa face.” Essa talvez seja a resposta mais necessária diante da Palavra de Deus.
Não somos uma vinha perfeita. Temos limites, pecados e omissões. Mas também temos muitas possibilidades de recomeçar. Deus continua cuidando da sua vinha. Continua confiando em nós. Continua esperando frutos. E esses frutos não dependem somente de uma pessoa. São fruto de uma comunidade que aprende a caminhar unida, a servir, a participar e a assumir sua responsabilidade na missão.
Por isso, como comunidade, precisamos perguntar: que tipo de vinha estamos construindo juntos? Estamos produzindo frutos de unidade, acolhida, solidariedade e missão? Estamos cuidando uns dos outros? Estamos atentos aos que sofrem? Estamos colocando nossos dons a serviço do bem comum?
Que não sejamos uma comunidade preocupada apenas em receber, mas uma comunidade disposta a produzir frutos que permaneçam.
São Francisco de Assis e o cuidado com a criação
E, neste 4 de outubro, recordamos com carinho São Francisco de Assis. Seu testemunho nos ajuda a ampliar ainda mais essa reflexão. Ao celebrarmos os 800 anos de sua morte, percebemos como sua mensagem continua atual.
Francisco soube contemplar a criação com um olhar de fé. Chamava o sol de irmão, a lua de irmã e reconhecia em cada criatura a marca do Criador. Ele nos recorda que cuidar da criação não é apenas uma questão ambiental. É também um compromisso de fé.
Quem reconhece Deus como Criador aprende a respeitar, proteger e cuidar daquilo que Ele criou. A vinha do Evangelho também pode nos lembrar a nossa casa comum. Deus nos confiou a criação, não para explorá-la de maneira irresponsável, mas para cultivá-la, protegê-la e fazer com que seus frutos possam chegar a todos.
Por isso, o apelo desta Palavra é também comunitário: precisamos cuidar juntos da casa que Deus nos confiou. Cuidar da água, das florestas, dos animais, dos rios e de toda a criação. Cuidar do ambiente onde vivemos. Cuidar uns dos outros. Cuidar daquilo que será deixado às próximas gerações.
Que São Francisco de Assis interceda por nós e nos ajude a construir uma comunidade mais simples para agradecer, mais sensível para contemplar e mais corajosa para servir e cuidar. Que, ao olhar para nossa comunidade, nossa família e para cada um de nós, o Senhor encontre os frutos que espera de sua vinha: frutos de justiça, de bondade, de comunhão, de amor e de cuidado com a vida.
A vinha é do Senhor. A missão é de todos nós. E os frutos que Ele espera começam nas nossas mãos, nas nossas escolhas e na maneira como cuidamos uns dos outros e da nossa casa comum.
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
02 de outubro de 2026