À medida que o ano litúrgico caminha para o seu final, o tema da vigilância ganha destaque. Nos três últimos domingos do ano litúrgico, a liturgia apresenta textos do chamado “discurso escatológico”, o último dos cinco grandes discursos atribuídos a Jesus no Evangelho de Mateus (Mt 24–25).
É importante compreender que o convite à vigilância não tem como objetivo provocar medo, mas reavivar a fé e fortalecer a esperança na realização plena do Reino de Deus, aumentando também a responsabilidade de cada cristão na sua construção.
No 32º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho apresenta a conhecida parábola das dez virgens (Mt 25,1-13), a primeira das três grandes parábolas do capítulo 25 de Mateus. As outras duas serão proclamadas nos domingos seguintes.
A parábola apresenta dez jovens que pegaram suas lâmpadas e foram ao encontro do noivo. Cinco eram prudentes e levaram consigo óleo suficiente para manter suas lâmpadas acesas durante a espera. As outras cinco foram imprudentes e não se prepararam adequadamente.
Para compreender melhor a mensagem, é importante recordar como aconteciam as festas de casamento na época de Jesus. O casamento era celebrado em etapas e, no dia da festa, o noivo ia ao encontro da noiva. Depois, acontecia o cortejo até a casa do noivo, normalmente no início da noite, iluminado pelas lâmpadas das jovens que acompanhavam a noiva.
Por isso, era fundamental estar preparado para uma possível demora do noivo.
É justamente a partir dessa realidade que Jesus apresenta a diferença entre as cinco jovens prudentes e as cinco imprudentes. As primeiras tinham óleo suficiente para manter suas lâmpadas acesas durante a espera; as outras não.
A vigilância, porém, não significa simplesmente ficar acordado. O próprio texto mostra que todas as jovens dormiram enquanto esperavam. A diferença estava na preparação.
Assim, Jesus ensina que vigiar significa permanecer preparado para o encontro com o Senhor, mantendo viva a fé e o compromisso com o Reino.
Um dos elementos centrais da parábola é o óleo. Na reflexão proposta pelo texto, ele pode ser compreendido como símbolo da vivência das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ou seja, do compromisso concreto de cada pessoa com o Reino de Deus.
As bem-aventuranças expressam uma vida marcada pelo amor, pela justiça, pela construção da paz, pela mansidão, pela solidariedade, pela tolerância e pelo respeito.
Esse compromisso é pessoal e intransferível. Ninguém pode amar no lugar de outra pessoa. Ninguém pode praticar a justiça no lugar do outro. Por isso, as jovens prudentes não poderiam simplesmente entregar seu óleo às imprudentes.
A mensagem é clara: a vida cristã não pode ser vivida apenas de palavras ou deixada para o último momento. É preciso alimentar diariamente a fé e colocá-la em prática.
A comunidade cristã para a qual Mateus escreveu o Evangelho vivia um período de dificuldades. Já haviam passado muitos anos desde a morte e ressurreição de Jesus, e os cristãos enfrentavam perseguições, conflitos e também o enfraquecimento da fé.
Nesse contexto, a parábola das dez virgens é um convite para não perder a esperança e não deixar apagar a chama da fé.
A espera pelo Senhor não deve ser marcada pelo medo, mas pela confiança. O próprio Evangelho de Mateus apresenta Jesus como o “Deus conosco” (Mt 1,23), aquele que permanece presente no meio da comunidade.
Por isso, a vigilância não significa viver preocupado com o dia ou a hora da chegada do Senhor. Significa viver de tal maneira que, quando esse encontro acontecer, nossa vida já seja uma expressão concreta do Evangelho.
Ao concluir a parábola, Jesus afirma:
“Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora.” (Mt 25,13)
A vigilância cristã é, portanto, uma vida de perseverança, amor e compromisso. Não basta dizer “Senhor, Senhor”; é necessário fazer a vontade do Pai (Mt 7,21).
A parábola das dez virgens nos recorda que não podemos deixar para depois aquilo que precisa ser vivido hoje. O óleo das lâmpadas representa aquilo que vamos construindo ao longo da vida: nossa fé, nosso amor, nossa justiça, nossa solidariedade e nosso compromisso com o Reino.
Neste domingo, somos convidados a perguntar: como está a chama da nossa fé? Temos mantido nossas lâmpadas acesas?
Vigiar é permanecer atentos à presença de Deus e transformar a esperança em atitudes concretas. É viver o Evangelho no cotidiano e assumir, com responsabilidade, nossa missão na construção do Reino.
Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
06 de novembro de 2026