A Solenidade da Ascensão do Senhor ocupa um lugar central no mistério pascal da Igreja. Ela marca o coroamento da missão terrena de Jesus Cristo e inaugura o tempo missionário da comunidade cristã. A liturgia da Palavra do Ano A, iluminada pelas leituras de At 1,1-11, Sl 46(47), Ef 1,17-23 e Mt 28,16-20, apresenta uma profunda síntese sobre a glorificação de Cristo, a missão universal da Igreja e a esperança que sustenta o povo de Deus em meio aos desafios da história.
A Ascensão não significa ausência ou abandono. Ao contrário, revela uma nova forma da presença do Ressuscitado no meio do seu povo. Cristo permanece vivo e atuante na Igreja pelo Espírito Santo, conduzindo-a na missão de anunciar o Evangelho até os confins da terra. A festa da Ascensão manifesta, assim, a união entre Cristo, a Igreja e a esperança da humanidade redimida.
A Primeira Leitura, retirada dos Atos dos Apóstolos, apresenta a Ascensão como o momento de passagem entre a missão histórica de Jesus e o início da missão apostólica da Igreja. São Lucas recorda os últimos acontecimentos da vida terrena do Senhor, mostrando que Jesus foi elevado ao céu após instruir os discípulos acerca do Reino de Deus.
O relato possui forte riqueza simbólica. A nuvem que envolve Jesus recorda as manifestações divinas do Antigo Testamento, sinal da presença gloriosa de Deus entre o seu povo. A Ascensão não deve ser compreendida como uma simples partida física, mas como a entronização do Ressuscitado na glória do Pai.
Os discípulos ainda demonstravam expectativas limitadas, perguntando a Jesus se naquele momento restauraria o reino de Israel. O Senhor, porém, amplia seus horizontes e desloca o olhar dos discípulos do poder político para a missão universal. Eles receberiam a força do Espírito Santo para serem testemunhas do Evangelho em toda a terra.
Aqui encontramos uma mensagem profundamente atual para a Igreja. Em tempos marcados pelo medo, pelas divisões e pela perda do sentido da esperança, os cristãos não podem permanecer paralisados “olhando para o céu”, distantes da realidade humana. A verdadeira experiência com Cristo conduz ao compromisso com a vida, com a evangelização, com a justiça e com a construção do Reino de Deus na história.
A contemplação autêntica conduz sempre à missão. Quem encontra o Ressuscitado torna-se testemunha da esperança.
O Salmo 46(47) celebra a realeza de Deus: “Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta”. A tradição cristã reconhece nesse salmo a imagem de Cristo glorioso, vencedor da morte e Senhor de todas as nações.
Essa compreensão aprofunda-se na Segunda Leitura, retirada da Carta aos Efésios. São Paulo apresenta Cristo ressuscitado e exaltado à direita do Pai, acima de todo poder, autoridade e dominação. Sentar-se à direita significa participar plenamente da soberania divina.
A Ascensão proclama que Jesus Cristo é o Senhor da história. Em meio às incertezas do mundo contemporâneo, às guerras, às crises sociais, ao sofrimento dos pobres e ao enfraquecimento de tantos valores humanos, a Igreja continua anunciando que a última palavra não pertence à violência, ao egoísmo ou à morte, mas ao Cristo glorificado que reina para sempre.
São Paulo afirma ainda que Cristo foi constituído Cabeça da Igreja. Existe uma profunda comunhão entre o Senhor glorificado e seu povo. A Ascensão não afasta Cristo da humanidade; ao contrário, eleva a própria humanidade à comunhão com Deus.
Por isso, a Ascensão é fonte de esperança. O destino de Cristo torna-se também o destino daqueles que nele creem. A humanidade não caminha para o vazio, mas para a plenitude da vida em Deus.
O Evangelho segundo Mateus apresenta a última manifestação do Ressuscitado aos discípulos na Galileia. O lugar possui forte significado simbólico, pois a Galileia era uma região aberta à convivência com diversos povos, representando a universalidade da salvação.
Jesus proclama: “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. A partir dessa autoridade universal, envia os discípulos em missão a todas as nações.
A missão da Igreja possui dimensões fundamentais: anunciar o Evangelho, formar discípulos e inserir os novos fiéis na comunhão com Deus por meio do Batismo. Evangelizar significa conduzir as pessoas ao encontro vivo com Cristo e ajudá-las a viver segundo os ensinamentos do Reino.
O Evangelho afirma ainda que alguns discípulos duvidaram. Esse detalhe revela a beleza e a verdade da missão cristã. Mesmo conhecendo as fragilidades humanas, Cristo continua confiando à Igreja a tarefa de evangelizar. A missão não se sustenta na perfeição dos discípulos, mas na fidelidade do próprio Senhor que prometeu: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo”.
Essa promessa ilumina profundamente o caminho pastoral da Igreja na atualidade. Em meio aos desafios da evangelização, às dificuldades das famílias, às feridas sociais e ao cansaço de tantas lideranças, Cristo permanece caminhando com seu povo. Ele continua presente na Palavra proclamada, na Eucaristia, nos sacramentos, na vida comunitária e no rosto sofrido dos irmãos e irmãs.
A Solenidade da Ascensão possui grande força pastoral para o tempo presente. Vivemos em uma sociedade marcada pelo individualismo, pela indiferença religiosa e pela perda da esperança. Muitas pessoas experimentam o vazio interior, a solidão e a insegurança diante do futuro.
Nesse contexto, a Ascensão proclama que a história humana possui um sentido maior. O Ressuscitado continua conduzindo a humanidade e sustentando sua Igreja. Ele não abandonou o mundo, mas permanece fortalecendo aqueles que lutam pela vida, pela dignidade humana e pela paz.
A Igreja é chamada a viver entre a memória da Páscoa e a esperança da plenitude futura. Trata-se de uma espiritualidade de esperança ativa, que une oração, compromisso missionário e solidariedade concreta.
A ordem de Jesus continua ecoando com força: “Ide e fazei discípulos”. A Igreja não pode fechar-se em si mesma nem permanecer presa apenas às estruturas. É chamada a sair em missão, alcançar as periferias humanas e existenciais, aproximar-se dos que sofrem e anunciar a todos a alegria transformadora do Evangelho.
Nesse horizonte, a Ascensão também ilumina a dimensão sinodal da Igreja. O Cristo glorificado reúne seu povo na unidade e o envia em comunhão missionária. Evangelizar é caminhar juntos, discernindo os sinais de Deus na história e testemunhando a presença viva do Ressuscitado no mundo.
A Solenidade da Ascensão do Senhor revela o mistério de Cristo glorificado, Senhor da história e Cabeça da Igreja. Longe de representar afastamento, inaugura uma nova forma da presença do Ressuscitado, que continua agindo pelo Espírito Santo na vida da comunidade cristã.
As leituras do Ano A mostram que a Igreja nasce missionária, sustentada pela promessa da presença permanente de Cristo. A Ascensão convida os cristãos a não permanecerem passivos diante dos desafios do mundo, mas a assumirem com coragem a missão evangelizadora, testemunhando o Reino de Deus em todos os ambientes da sociedade.
Celebrar a Ascensão é renovar a esperança de que a humanidade, em Cristo, é chamada à comunhão plena com Deus. O Senhor que subiu aos céus continua caminhando com sua Igreja, sustentando-a nas tribulações, fortalecendo-a na missão e conduzindo-a, com amor e misericórdia, rumo à plenitude do Reino.
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
15 de Maio de 2026
Referências bibliográficas
Bíblia Sagrada. Brasília: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Concílio Vaticano II. Lumen Gentium. Vaticano, 1964.
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João Paulo II. Redemptoris Missio. Vaticano, 1990.
Francisco. Evangelii Gaudium. Vaticano, 2013