Porto Velho, sábado, 18 de julho de 2026

17/07/2026 .

A paciência de Deus e o crescimento silencioso do Reino – Reflexão para o 16º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

A Palavra de Deus deste domingo nos convida a contemplar um dos mais belos atributos do Senhor: sua misericórdia paciente. Vivemos em uma sociedade marcada pela pressa, pela impaciência e por julgamentos precipitados. Queremos respostas imediatas, soluções rápidas e condenações instantâneas. Deus, porém, age de modo diferente. Seu tempo é o tempo da graça, e sua justiça caminha sempre unida à misericórdia.

A primeira leitura (Sb 12,13.16-19) apresenta uma profunda reflexão sobre a justiça divina. O autor sagrado afirma que Deus é o único Senhor de todas as coisas e, exatamente porque possui todo o poder, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Pelo contrário:

“A tua força é princípio da tua justiça.”

Enquanto a lógica humana associa poder à imposição e ao medo, a lógica de Deus revela que o verdadeiro poder se manifesta na misericórdia. Deus domina sua própria força para oferecer ao pecador a oportunidade da conversão. Por isso, sua justiça não é vingança, mas expressão de amor que deseja restaurar a vida.

A leitura conclui afirmando que Deus ensina seu povo a viver com humanidade. Essa é uma das grandes lições da Escritura: quem experimenta a misericórdia de Deus aprende também a ser misericordioso com os irmãos.

O Salmo 85 prolonga essa mesma experiência de confiança ao proclamar:

“Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel.”

A bondade de Deus não é uma ideia abstrata. Ela se manifesta concretamente quando Ele escuta nossa oração, permanece fiel apesar de nossas infidelidades e nunca deixa de amar aquilo que criou.

Na segunda leitura (Rm 8,26-27), São Paulo revela outra face da misericórdia divina: a ação do Espírito Santo em nossa fragilidade. O apóstolo reconhece uma realidade que todos experimentamos: muitas vezes não sabemos rezar. Existem dores que não cabem em palavras e sofrimentos que silenciam nosso coração.

É justamente nesse lugar de fraqueza que Deus se aproxima de nós.

“O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza.”

Antes mesmo que saibamos o que pedir, Deus conhece nossas necessidades. O Espírito Santo reza em nós, interpreta nossos silêncios, transforma nossas lágrimas em oração e conduz nosso coração para a vontade do Pai. Assim, a oração cristã não depende apenas do esforço humano, mas da ação do próprio Deus que habita em nós.

No Evangelho (Mt 13,24-43), Jesus apresenta três parábolas que revelam o modo como o Reino de Deus cresce na história.

A primeira é a parábola do trigo e do joio. O campo representa o mundo, mas também pode simbolizar nosso coração e a própria Igreja. Nele convivem o bem e o mal, fidelidades e fragilidades, virtudes e pecados. Jesus não apresenta uma humanidade dividida entre pessoas totalmente boas e totalmente más; mostra, antes, uma realidade complexa, onde trigo e joio crescem juntos.

Diante dessa situação, os empregados querem arrancar imediatamente o joio. Essa também costuma ser nossa reação. Temos facilidade em julgar, classificar pessoas e desejar eliminar tudo aquilo que nos incomoda. No entanto, o dono do campo responde:

“Deixai crescer um e outro até a colheita.”

Nessa resposta se revela toda a pedagogia de Deus. Sua paciência não significa aprovação do mal, nem indiferença diante do pecado. Deus condena o pecado, mas nunca desiste do pecador. Ele concede tempo para a conversão, respeita a liberdade humana e conhece profundamente cada coração. Somente Ele sabe distinguir aquilo que ainda pode florescer pela ação da graça.

A história da Igreja confirma essa verdade. Santo Agostinho viveu muitos anos distante de Deus antes de sua conversão. São Paulo perseguiu os cristãos. São Pedro negou o Senhor. Santa Maria Madalena teve sua vida completamente transformada pelo encontro com Cristo. Se o “joio” tivesse sido arrancado antes do tempo, o mundo teria perdido grandes testemunhas da santidade.

Em seguida, Jesus apresenta duas pequenas parábolas: a do grão de mostarda e a do fermento na massa. Ambas ensinam que o Reino de Deus cresce de forma discreta e silenciosa.

O Reino não se impõe pela força, pelo prestígio ou pelo poder. Ele cresce como uma pequena semente lançada na terra e como o fermento escondido na massa. Sua força está justamente na ação silenciosa da graça.

É assim que Deus continua transformando o mundo: por meio de uma família que reza unida, de uma pessoa que escolhe perdoar, de um jovem que permanece fiel aos valores do Evangelho, de uma visita a um doente, de uma palavra de esperança ou de uma pequena comunidade que persevera na fé. Aos olhos do mundo, esses gestos parecem insignificantes, mas possuem uma extraordinária força transformadora. O Reino cresce não pela lógica da quantidade, mas pela fecundidade da graça.

Na conclusão do Evangelho, Jesus recorda que haverá uma colheita. A misericórdia de Deus não elimina sua justiça; ao contrário, oferece tempo para que todos possam acolher a conversão. Entretanto, chegará o dia em que toda a verdade será plenamente manifestada. Então, como afirma o Senhor,

“Os justos brilharão como o sol no Reino do Pai.”

Essa promessa recorda nossa vocação à santidade. Não fomos criados para permanecer divididos entre o trigo e o joio, mas para permitir que a graça transforme, pouco a pouco, tudo aquilo que ainda precisa ser purificado em nosso coração.

Essa Palavra também ilumina a vida de nossas comunidades. Muitas vezes surge a tentação de julgar pessoas, criar divisões, estabelecer rótulos e excluir aqueles que pensam ou vivem de modo diferente. Jesus nos ensina outro caminho. A Igreja é, antes de tudo, lugar de acolhida, conversão e cura. Sem relativizar o pecado, ela anuncia a misericórdia e acredita que ninguém está fora do alcance da graça de Deus.

Por isso, a missão da Igreja é semear o Evangelho, cultivar o trigo, celebrar os sacramentos, formar discípulos missionários e confiar que o próprio Senhor continuará realizando sua obra no coração das pessoas.

Por fim, a liturgia nos convida a olhar para dentro de nós mesmos. Todos carregamos trigo e joio; todos possuímos virtudes e limitações; todos necessitamos da misericórdia divina. A boa notícia é que Deus nunca desiste de seus filhos. Ele continua cultivando o campo do nosso coração, enviando o Espírito Santo para fortalecer nossa fraqueza e fazendo crescer, silenciosamente, o Reino em nossa vida.

Que a Eucaristia renove nossa confiança na paciência de Deus, nos ensine a olhar os irmãos com misericórdia, a rezar guiados pelo Espírito Santo e a colaborar, com humildade e perseverança, para que o Reino de Deus continue crescendo no mundo, como o pequeno grão de mostarda e como o fermento escondido na massa.

“Quem tem ouvidos, ouça.” (Mt 13,43)

Pe. Geraldo Siqueira Almeida

17 de julho de 2026

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