Porto Velho, sábado, 24 de outubro de 2026

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23/10/2026 .

Amar a Deus e ao próximo: o coração da vida cristã – Reflexão para o 30º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

As leituras deste 30º Domingo do Tempo Comum nos conduzem ao centro da nossa fé: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a nós mesmos. Jesus nos recorda que esses dois mandamentos são inseparáveis e que toda a Lei e os Profetas encontram neles o seu sentido mais profundo. Não basta conhecer a Palavra de Deus; é preciso permitir que ela transforme nossas atitudes, nossas escolhas e nossa maneira de nos relacionarmos com as pessoas.

Na primeira leitura, do Livro do Êxodo 22,20-26, Deus nos pede que não oprimamos nem maltratemos o estrangeiro, a viúva e o órfão. São pessoas que, naquele contexto, estavam entre as mais vulneráveis da sociedade. O Senhor se apresenta como aquele que escuta o clamor dos que sofrem e não permanece indiferente diante da injustiça. Essa Palavra nos revela que o amor a Deus não pode ser separado do cuidado com os pequenos, os pobres e aqueles que mais precisam de atenção e acolhida.

O texto também nos convida a recordar a nossa própria história. Deus diz ao povo de Israel: “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito”. Quem experimentou a misericórdia de Deus é chamado a agir com misericórdia. Quem foi acolhido deve aprender a acolher; quem recebeu perdão deve estar disposto a perdoar; quem experimentou o amor de Deus não pode fechar os olhos diante do sofrimento do irmão. A experiência da graça precisa se transformar em compromisso com a vida e com a dignidade humana.

No Evangelho de Mateus 22,34-40, Jesus é questionado sobre qual é o maior mandamento da Lei. Sua resposta é clara: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todo o entendimento; e amar o próximo como a si mesmo. Jesus não apresenta dois caminhos diferentes, mas duas dimensões inseparáveis de uma única experiência de amor. O amor a Deus se expressa na oração, na escuta da Palavra, na participação na Eucaristia e na fidelidade à sua vontade. Mas esse mesmo amor precisa se manifestar também na maneira como tratamos as pessoas, especialmente aquelas com quem convivemos diariamente.

Não podemos dizer que amamos a Deus se desprezamos o nosso irmão. A fé cristã não se limita às palavras, às práticas religiosas ou aos momentos de oração. Tudo isso é essencial, mas deve produzir frutos concretos de caridade, justiça, solidariedade e reconciliação. O altar para o qual nos dirigimos na celebração da Eucaristia deve nos tornar mais sensíveis às necessidades daqueles que encontramos pelo caminho. O pão que partilhamos à mesa do Senhor nos compromete com a partilha da vida, do tempo, dos dons e dos bens.

Essa relação entre a Eucaristia e o cuidado com os pobres foi expressa de maneira contundente por São João Crisóstomo, ao questionar:

“Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres?” (São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus, Homilia 50, 3).

Essa pergunta permanece atual e interpela profundamente a vida da Igreja. A beleza de nossas celebrações e o cuidado com os espaços sagrados são importantes, mas não podem nos fazer esquecer que Cristo também se faz presente naqueles que sofrem, passam fome e têm sua dignidade ferida. A mesa da Eucaristia deve nos educar para reconhecer e servir Cristo na mesa dos pobres. Não há verdadeira comunhão com o Senhor quando permanecemos indiferentes à dor dos nossos irmãos.

Nessa mesma perspectiva, o Papa Francisco, em sua Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres, recordou:

“Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia” (Papa Francisco, Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres, 2017, n. 3).

Essa afirmação nos ajuda a compreender que encontrar Cristo na Eucaristia implica deixar-se conduzir por Ele ao encontro daqueles que mais necessitam de cuidado, presença e solidariedade. A participação na Missa não termina com a bênção final; ela continua na vida cotidiana, quando nos tornamos capazes de reconhecer no rosto dos pobres o rosto do próprio Senhor. A comunhão recebida no altar deve se transformar em comunhão vivida, em gestos concretos de amor e em compromisso com a dignidade de cada pessoa.

Amar o próximo como a nós mesmos também exige que reconheçamos a dignidade de cada pessoa. Significa aprender a escutar sem julgar precipitadamente, corrigir sem humilhar, discordar sem ofender e servir sem buscar reconhecimento. Às vezes, imaginamos que amar exige realizar grandes gestos, mas esse amor começa nas pequenas atitudes: uma palavra de consolo, uma visita a quem está sozinho, a atenção a uma família em dificuldade, a disposição para perdoar e a coragem de defender quem sofre injustiça.

Na segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 1,5c-10, o apóstolo elogia a comunidade de Tessalônica porque acolheu a Palavra com a alegria do Espírito Santo e se tornou exemplo para outras comunidades. A fé daqueles cristãos não ficou escondida, mas se transformou em testemunho. Isso nos ensina que uma comunidade verdadeiramente cristã é reconhecida não apenas pela beleza de suas celebrações ou pela quantidade de suas atividades, mas também pela qualidade do amor que vive e transmite. Quando uma comunidade acolhe, cuida dos mais frágeis, promove a reconciliação e se compromete com a missão, ela anuncia o Evangelho com a própria vida.

Essa reflexão também interpela nossas comunidades, pastorais, movimentos e serviços. Podemos realizar muitas atividades e, ainda assim, correr o risco de perder o essencial se não cultivarmos relações fraternas, respeito mútuo, espírito de serviço e corresponsabilidade. A missão da Igreja nasce do encontro com Cristo e se fortalece quando aprendemos a caminhar juntos, reconhecendo os dons de cada pessoa e colocando-os a serviço de todos. Uma comunidade eucarística é chamada a ser também uma comunidade solidária, que celebra o amor de Deus e o testemunha por meio do cuidado com os pobres, os enfermos, os idosos, as famílias em dificuldade e todos aqueles que vivem situações de vulnerabilidade.

Por isso, a pergunta que a Palavra de Deus nos deixa neste domingo é muito concreta: o nosso modo de viver revela que realmente amamos a Deus e ao próximo? Como tratamos as pessoas da nossa família, os irmãos da comunidade, aqueles que pensam diferente de nós e os que não podem nos oferecer nada em troca? Nossa fé nos torna mais misericordiosos, pacientes, generosos e comprometidos com a justiça? E, sobretudo, nossas celebrações eucarísticas nos tornam mais atentos à fome, à solidão e ao sofrimento dos nossos irmãos?

O salmista, no Salmo 17(18), expressa a confiança de quem reconhece em Deus sua força, sua rocha e sua salvação: “Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação”. Quem encontra em Deus o fundamento da própria vida aprende a amar com maior liberdade e generosidade. Não se trata de um amor sustentado apenas pelos sentimentos, mas de uma decisão cotidiana de permanecer fiel ao Senhor, permitindo que sua graça transforme o coração.

Peçamos, portanto, que o Espírito Santo nos ajude a viver a unidade desses dois mandamentos. Que o nosso amor a Deus se manifeste em uma vida de oração sincera e que a nossa oração nos conduza ao encontro concreto com os irmãos. Que nossas comunidades sejam lugares de acolhida, cuidado e compromisso com os mais vulneráveis. Que a mesa da Eucaristia nos ensine a reconhecer Cristo na mesa dos pobres e que a comunhão com o Senhor se traduza em partilha, solidariedade e serviço. E que, em cada gesto de amor, revelemos o rosto misericordioso de Cristo.

A medida da nossa fé não está apenas naquilo que professamos com os lábios, mas também no amor que somos capazes de testemunhar com a vida. Amar a Deus e amar o próximo é o caminho que dá sentido à nossa existência cristã e torna o Evangelho vivo no mundo. Afinal, quando o amor se torna o princípio de nossas escolhas, a fé deixa de ser apenas uma palavra proclamada e se transforma em presença de Deus na vida das pessoas.

Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
22 de outubro de 2026

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