O tempo pascal conduz a Igreja ao coração da fé cristã: Jesus Cristo morto e ressuscitado, vencedor do pecado e da morte. No 5º Domingo da Páscoa, a liturgia apresenta textos profundamente ligados à vida da Igreja e à sua missão: At 6,1-7; Sl 32(33); 1Pd 2,4-9; Jo 14,1-12.
Essas leituras revelam a identidade da comunidade nascida da Páscoa: uma Igreja organizada pela caridade, edificada sobre Cristo, Pedra Viva, e enviada ao mundo como sinal de esperança. Em tempos marcados por insegurança, divisões e busca de sentido, a Palavra de Deus oferece um caminho seguro e luminoso: Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6), fundamento firme para a humanidade e fonte de renovação para a missão da Igreja.
A primeira leitura apresenta um conflito dentro da comunidade cristã primitiva. Os cristãos de origem grega reclamavam que suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária dos alimentos. Não era apenas um problema administrativo, mas uma crise que envolvia justiça, comunhão e cuidado com os pobres.
Os apóstolos percebem que não podem abandonar “a oração e o serviço da Palavra” (At 6,4), mas também entendem que a caridade precisa de organização. Por isso escolhem sete homens “cheios do Espírito Santo e de sabedoria”.
Desde o início, a Igreja nasce carismática e ministerial. Não existe oposição entre espiritualidade e organização. O Espírito Santo suscita ministérios concretos para responder às necessidades do tempo.
O texto mostra ainda que evangelização e promoção humana caminham juntas. A Palavra anunciada precisa tornar-se pão repartido.
Muitas comunidades ainda sofrem com conflitos internos, centralização excessiva ou abandono dos mais frágeis. Atos 6 ensina que os problemas não devem ser ignorados, mas enfrentados com escuta, participação e corresponsabilidade.
Papa Francisco recorda: “A Igreja cresce não por proselitismo, mas por atração” (Evangelii Gaudium, n. 14). Essa atração nasce quando a comunidade testemunha amor concreto, justiça e serviço humilde.
A segunda leitura apresenta uma das imagens mais belas da Igreja no Novo Testamento. Cristo é a Pedra Viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus. Os fiéis, unidos a Ele, tornam-se também “pedras vivas” na construção de um edifício espiritual.
A pedra rejeitada é Cristo crucificado. A pedra exaltada é Cristo ressuscitado. A rejeição da cruz transforma-se em fundamento da salvação. A Páscoa revela que Deus constrói sua obra justamente onde o mundo vê fracasso.
Os batizados são chamados de:
Isso expressa o sacerdócio comum dos fiéis, pois todos participam da missão de Cristo sacerdote, profeta e rei (cf. Lumen Gentium, 10).
A Igreja não é apenas uma organização humana, mas templo vivo onde Deus habita.
Em tempos de individualismo, São Pedro recorda que ninguém se salva sozinho. Somos pedras vivas inseridas num mesmo edifício espiritual.
Papa Francisco afirma: “Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente” (Fratelli Tutti, n. 8).
A vida cristã exige pertença comunitária, fraternidade e missão partilhada.
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,1-12)
O Evangelho situa-se no discurso de despedida de Jesus. Os discípulos estão inquietos diante da paixão que se aproxima. Por isso, o Senhor começa dizendo: “Não se perturbe o vosso coração” (Jo 14,1).
Jesus não apenas indica uma rota moral. Ele próprio é o caminho que conduz ao Pai. Segui-lo significa entrar em sua lógica de amor, obediência e entrega.
Num mundo cheio de propostas confusas, Cristo continua sendo o caminho seguro.
Na Bíblia, a verdade não é uma ideia abstrata, mas a revelação fiel de Deus. Em Jesus contemplamos o rosto do Pai: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9).
Ele revela um Deus misericordioso, próximo e salvador.
A vida que Jesus oferece não é simples existência biológica, mas participação na própria vida divina. A ressurreição inaugura essa plenitude.
O homem contemporâneo experimenta ansiedade, vazio e fragmentação interior. O Evangelho responde com a presença viva de Cristo.
Papa Francisco ensina: “Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Evangelii Gaudium, n. 1).
A fé pascal não elimina as dificuldades, mas dá sentido e esperança.
Jesus anuncia que vai preparar um lugar para os discípulos. Trata-se de uma promessa de vida eterna: o destino final da humanidade é a comunhão com Deus.
Essa palavra consola especialmente em tempos de luto, violência e medo do futuro. A ressurreição abre horizontes eternos.
A esperança cristã não afasta da realidade, mas fortalece o compromisso com o presente.
À luz dessas leituras, destacam-se cinco urgências pastorais:
Diante das crises do mundo e das inquietações do coração humano, a resposta cristã continua sendo a mesma: Jesus Cristo.
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
24 de Abril de 2026
Bibliografia
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium. Vaticano, 1964.
FRANCISCO. Evangelii Gaudium. Vaticano, 2013.
FRANCISCO. Fratelli Tutti. Vaticano, 2020.
RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.