Porto Velho, sábado, 18 de julho de 2026

18/07/2026 .

“Da Cova ao Altar do Papa”: A ressurreição de Paolo Sirignano pela Fazenda da Esperança

Há cerca de cinco anos, o italiano Paolo Sirignano caminhava sem rumo pelas ruas de Porto Velho (RO). Dependente de entorpecentes, pesando apenas 40 quilos e após uma longa trajetória marcada pelo tráfico internacional de drogas, prisões e overdoses na Europa e no Brasil, acreditava que sua história havia chegado ao fim.

Hoje, sua realidade é completamente diferente. Missionário da Fazenda da Esperança, Paolo percorre comunidades, paróquias e escolas na Itália, Alemanha e Espanha, anunciando o Evangelho e testemunhando que nenhuma vida está definitivamente perdida quando encontra acolhimento, fé e uma nova oportunidade.

Em visita ao Brasil para rever a esposa e os filhos, após a reconstrução dos vínculos familiares promovida ao longo dos últimos anos, Paolo voltou também à Fazenda da Esperança São Francisco de Assis, em Alto Paraíso (RO), lugar que considera o marco de sua transformação.

Uma juventude marcada pela dor

Nascido na Itália em uma família de classe média alta, Paolo teve uma infância tranquila e recebeu formação católica em escolas salesianas. A morte repentina de seu pai, quando tinha apenas 16 anos, mudou completamente o rumo de sua vida. Além do luto, a família enfrentou graves dificuldades financeiras, obrigando sua mãe a trabalhar como faxineira e Paolo a abandonar os estudos. A revolta e o sofrimento abriram caminho para o envolvimento com a criminalidade.

Aos 17 anos foi preso pela primeira vez por tráfico de drogas. A partir daí, passou a integrar organizações criminosas, transportando entorpecentes entre Itália, Holanda e Espanha. Viveu anos de dependência química, prisões e sucessivas overdoses.

No fim da década de 1990, chegou a morar nas ruas de Roma e sobreviveu a episódios extremos de violência, incluindo um sequestro promovido por traficantes rivais. Após cumprir pena, participou de um tratamento em uma comunidade terapêutica na Itália, onde permaneceu por dois anos.

O sonho brasileiro e uma nova queda

Concluído o tratamento, Paolo veio ao Brasil como voluntário. Aqui conheceu sua esposa, constituiu família e iniciou uma nova etapa de vida. Com recursos provenientes da venda de um imóvel herdado na Itália, abriu um restaurante e adquiriu uma casa. Externamente, tudo parecia indicar uma história de superação.

Entretanto, a dependência nunca havia sido totalmente vencida. O uso de cocaína e maconha voltou a crescer, levando novamente à perda do patrimônio, do trabalho e da estabilidade familiar. Após novas dificuldades e a morte de um enteado, Paolo mergulhou definitivamente no consumo do crack. Separou-se da família e chegou a Porto Velho, onde viveu o período mais doloroso de sua existência.

“Passei um ano e meio morando na rua. Cheguei a pesar apenas 40 quilos. Foi o meu inferno”, recorda.

O encontro com a esperança

Em um dos momentos mais difíceis, Paolo decidiu tirar a própria vida. Permaneceu por horas às margens da rodovia, próximo à rodoviária de Porto Velho, esperando um caminhão para se lançar diante dele.

“O caminhão nunca passou. Hoje acredito que Deus segurou aquele caminhão. Não era o meu momento.”

Sem destino, caminhou durante dois dias pela BR até chegar a Ariquemes. Ali foi acolhido pela assistência social e por Dona Marli, que lhe ofereceu abrigo. Foi por meio dela que conheceu o padre José Leylson, que o apresentou à Fazenda da Esperança São Francisco de Assis, em Alto Paraíso.

Ao chegar à comunidade, Paolo não acreditava que conseguiria reconstruir sua vida. Pretendia apenas descansar por alguns dias. No entanto, encontrou uma realidade diferente daquela que imaginava. A convivência fraterna, o trabalho e, sobretudo, a vivência cotidiana do Evangelho transformaram profundamente sua maneira de enxergar a vida.

“O amor que encontrei ali desmontou todas as minhas defesas”, afirma.

Paolo destaca com gratidão o acompanhamento recebido do padre José Leylson e da equipe da Fazenda da Esperança.

“Um dia ele me disse: ‘Você precisa parar de olhar para o passado e começar a olhar para o futuro, porque Deus ainda tem muito para realizar na sua vida’. Nunca mais esqueci essas palavras.”

Foi em Alto Paraíso que, segundo ele, recuperou a dignidade, reencontrou Deus e voltou a confiar nas pessoas.

“A Fazenda da Esperança não me tirou apenas das drogas. Ela me devolveu a vida.”

Da recuperação à missão

Após concluir seu período de acolhimento, Paolo ingressou na Escola de Missionários da Fazenda da Esperança. Inicialmente, seria enviado para Moçambique. Contudo, um diálogo com Nelson Giovanelli, um dos fundadores da obra, mudou seus planos. Foi desafiado a retornar justamente para a Itália, país onde havia vivido os momentos mais difíceis de sua história.

Em 2023, voltou à Europa, desta vez não como dependente químico ou traficante, mas como missionário da instituição que o ajudou a reconstruir a própria vida. Na Fazenda da Esperança da Itália encontrou também importantes referências espirituais, entre elas o padre Márcio, que o acompanhou no amadurecimento de sua vocação missionária.

Atualmente, Paolo realiza trabalhos de evangelização em diferentes países da Europa, acolhendo pessoas em situação de dependência química e testemunhando a ação de Deus em sua vida.

Das ruas de Roma ao anúncio do Evangelho

Um dos momentos mais marcantes de sua missão aconteceu durante o Jubileu da Fazenda da Esperança, em Roma. Enquanto evangelizava nas proximidades da Basílica de São João de Latrão, percebeu que caminhava exatamente pelas mesmas ruas onde, anos antes, havia comprado drogas, traficado e vivido profundas situações de sofrimento.

“Eu evangelizava nas mesmas ruas onde um dia destruí minha vida. Deus me levou de volta àquele lugar, mas agora para anunciar esperança.”

Na mesma ocasião, participou das celebrações jubilares com o Papa Francisco, experiência que resume com o título dado ao próprio testemunho: “Da cova ao altar”.

Uma família reconstruída

A transformação alcançou também sua família. No ano passado, sua esposa passou a participar do Grupo Esperança Viva (GEV), iniciativa da Fazenda da Esperança voltada ao acompanhamento dos familiares dos acolhidos. Pouco a pouco, o diálogo foi sendo retomado, o perdão substituiu as mágoas e os filhos voltaram a conviver com o pai.

A visita ao Brasil representa justamente esse reencontro e confirma, segundo Paolo, que a recuperação promovida pela Fazenda da Esperança vai muito além da libertação das drogas: ela restaura relações, devolve a esperança e reconstrói famílias.

“Hoje posso abraçar meus filhos, olhar minha esposa nos olhos e agradecer por tudo que Deus fez. Se eu tivesse morrido naquela rodovia em Porto Velho, nada disso teria acontecido.”

Uma mensagem de esperança

Ao concluir seu testemunho, Paolo deixa uma palavra para aqueles que ainda enfrentam a dependência química ou acreditam que não existe saída.

“Se alguém me dissesse, quando eu pesava 40 quilos e esperava um caminhão para acabar com minha vida, que um dia eu seria missionário, pisaria novamente nas ruas de Roma para falar de Deus e estaria diante do Papa, eu chamaria essa pessoa de louca. Mas Deus escreve histórias que nós nunca conseguiríamos imaginar.”


Fazenda da Esperança: uma obra de evangelização e recuperação

Fundada em 1983, em Guaratinguetá (SP), pelo frei Hans Stapel e por Nelson Giovanelli, a Fazenda da Esperança desenvolve um trabalho de acolhimento baseado em três pilares: convivência, trabalho e espiritualidade, tendo a vivência diária do Evangelho como caminho de recuperação.

Presente em diversos países, a instituição acolhe gratuitamente pessoas em situação de dependência química e vulnerabilidade social, promovendo não apenas a recuperação pessoal, mas também a reconstrução dos vínculos familiares por meio do Grupo Esperança Viva (GEV).

A unidade São Francisco de Assis, em Alto Paraíso (RO), integra essa missão de anunciar a esperança por meio da experiência concreta do amor de Deus, testemunhada na vida de pessoas como Paolo Sirignano.

 

Fonte: Rondoniaovivo

 

Por: Assessoria de Comunicação – Arquidiocese de Porto Velho

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