Porto Velho, sábado, 26 de setembro de 2026

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26/09/2026 .

Sinodalidade à luz da Igreja “em saída”: nova primavera do Concílio Vaticano II

O Papa Francisco trouxe inúmeras contribuições teológicas para a missão da Igreja. Os seus discursos, mensagens, magistério e diálogos possibilitaram pensar a Igreja caminhando junta na saída missionária (EG 20). Os gestos humanos do seu pontificado fizeram credível a mensagem desta proposta. Lembremos da sua ida a Lampedusa, sobre a responsabilidade das mortes de migrantes: “a globalização da indiferença torna-nos a todos inominados, responsáveis sem nome nem rosto” (Francisco, 2013). Assim, como o Espírito Santo desinstalou a comunidade apostólica (At 2, 1-36), a releitura das propostas do Concílio Vaticano II foi iniciada, prosseguida com o Papa Leão XIV na implementação da sinodalidade:

O chamado é claro: ser Igreja em saída, ser profecia a partir dos lugares que clamam, ser presença que escuta e acompanha. ‘Vocês são a força profética’, disse-nos, encorajando-nos a dar mais um passo, a fortalecer a missão rumo às periferias e a permanecermos reunidos na comunhão que torna possível caminharmos juntos. A sinodalidade — insistiu — não é apenas um método, mas algo essencial: é para a missão, é para tecer comunhão com os outros, é para abrir caminhos de sororidade e fraternidade na Igreja (Collet, 2026).

Pensar a proposta da Igreja “em saída” é realizar o movimento espiritual de conversão ao Evangelho, e a sua práxis fiel numa mudança de época. Teólogos, bispos, povo fiel e a vida religiosa são convidados a primeirear esse caminho junto:

A Igreja “em saída” é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo –, tomam a iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos (EG 24).

O melhor modo de proceder esse caminho e implementar a sinodalidade está em se abaixar nas nossas comunidades (EG 24). E com elas realizar a leitura, escuta, discernimento, oração e decisão à luz dos sinais dos tempos, indagando-se sobre quais são os sinais que necessitam de esperança. Esse procedimento provoca a iniciativa de se aproximar, sem a pretensão de solucionar os problemas com respostas prontas ou proselitismos, e sim com atração e proximidade. A dinâmica do Concílio Vaticano II se faz irreversível, pois é uma proposta evangélica e possibilitadora da sinodalidade (Bordignon, 2026, p. 11). As posições polarizadoras de todos terem a verdade a partir da síndrome do eu sei ou eu fiz, necessitam de uma primavera do nós. Essa força viva primaveral gera a comunhão, tanto ao povo de Deus como com todas as pessoas de boa vontade.

O Concílio Vaticano II possibilita a sinodalidade com as suas conversões necessárias. Esse caminho trará consequências pessoais, estruturais, pastorais e missionárias. O rosto da Igreja “em saída” está na perspectiva conciliar de dialogar “no” e “com” mundo, fazendo-a glocal. O Papa Francisco utilizou essa expressão ao se referir as suas viagens apostólicas, descentralizando a Igreja em direção as questões globais presentes em localidades humanas (Galli, 2017, p. 38). Esse dinamismo missionário faz as letras do Evangelho ganharem vida, pois a Igreja na sua força espiritual se faz presente nas demandas humanas.

Protagonizar novos processos teológicos significa compreender quais passos e qual direção devemos ir. Por isso, uma Igreja missionária e aberta aos sopros dos Espírito exige dela se abaixar, para ser servidora (Jo 13,) e samaritana (Lc 10, 25-37) (EG 120). E a imagem concreta dessa aplicação pastoral está no hospital de campanha. Recordemos uma das primeiras entrevistas do Papa Francisco, apontando a bússola da Igreja “em saída”:

Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma longa batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar alto. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar do resto. Curar feridas, curar feridas…. E é necessário começar de baixo (Spadaro, 2013, p. 19).

Essa aplicabilidade exige a Igreja se colocar de joelhos, tanto com a importância de ser orante como de ser lavadora de pés. As mudanças aceleradas da humanidade (Ls 101) trazem incertezas quanto ao estilo social, eclesial e ecológico. A pluralidade mundial tem trazido mais impasses do que certezas de salvaguardar a humanidade e a sua casa comum. Revestida de avental e ajoelhada para orar e servir, a Igreja “em saída” convida a todos caminharmos em direção as incertezas do mundo. Essa postura teológica e pastoral atualiza o aggiornamento proposto pelo Papa João XXIII.

A sinodalidade se torna a aplicabilidade da Igreja vestida de avental e abaixada as dores, sofrimentos, guerras, pobrezas, migrações, indiferenças, efeitos climáticos, polarizações e a disposição de curar. Serão pessoas concretas e feridas que encontraremos juntos no caminho, necessitando serem escutadas, curadas e servidas. Sair de si mesmos, das sacristias, dos esquemas pré-definidos, das próprias ideias em direção as feridas humanas (EG 33-49). Eis a Igreja “em saída” pronta para avançar na sinodalidade, contraindo o cheiro das ovelhas (EG 24).

 

Siglas:
Evangelii Gaudium – EG

Laudato Si’ – LS

 

Referências:
BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2003.
BORDIGNON-MEIRA, A. L. A Igreja sinodal “em saída”. São Paulo: Paulus, 2026.
COELLET, A. Religiosos da América Latina com o Papa no Vaticano: é preciso ser Igreja “em saída” – 6 maio de 2026. Disponível em https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-05/papa-leao-xiv-audiencia-clar-religiosos-america-latina-2026.html. acesso em 6 set de 2026.
FRANCISCO, papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus, 2013.
FRANCISCO, papa. Carta encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado com a Casa Comum. São Paulo: Paulus, 2015.
FRANCISCO. Homilia na missa pelos náufragos de Lampedusa, 8 julho de 2013. Disponível em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2013/documents/papa-francesco_20130708_omelia-lampedusa.html. acesso em 6 set de 2026.
GALLI, C. M. La Riforma missionaria dela Chiesa secondo Francesco l’eclesiologia del populo di Dio evangelizzatore. In. SPADARO, A.; GALLI, C. M. (Orgs.) La Riforma e le Riforme nella Chiesa. Brescia: Queriniana, 2017, p. 37-65.
SPADARO, A. Entrevista com o papa Francisco. São Paulo: Paulus, 2013.

Fonte:Ciberteologia – Paulinas

 

Por: Pe. André Luiz Bordignon-Meira – Doutor em Teologia pela PUCRJ leciona Teologia na Faculdade Católica de Rondônia

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