Porto Velho, sábado, 07 de março de 2026

06/03/2026 .

Sair, Subir e Descer: A Dinâmica Espiritual da Transfiguração no Caminho Quaresmal

O segundo domingo da Quaresma conduz a Igreja à contemplação do mistério da Transfiguração do Senhor (cf. Mt 17,1-9). A cada ano, este Evangelho é proposto como luz para o caminho quaresmal. Se, no primeiro domingo, somos confrontados com as tentações (cf. Mt 4,1-11), agora somos convidados a contemplar a glória, não uma glória que elimina a cruz, mas aquela que passa por ela e lhe confere sentido (cf. Mt 16,21).

Nesse itinerário espiritual, a Palavra de Deus apresenta três movimentos fundamentais: sair, subir e descer. Tais movimentos revelam a dinâmica da fé cristã e iluminam a vivência concreta da Quaresma.

1. Sair: O chamado da fé

Na primeira leitura (cf. Gn 12,1-4a), Deus dirige-se a Abraão com uma ordem decisiva: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai” (Gn 12,1). Inicia-se, assim, um caminho marcado pela confiança.

Abraão parte não porque possui todas as respostas, mas porque confia na promessa divina: “Vai para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12,1). Ele deixa a segurança do conhecido, sustentado unicamente pela fidelidade de Deus e pela bênção prometida: “Farei de ti uma grande nação” (Gn 12,2).

Também a Quaresma é tempo de saída:

  • sair do pecado que aprisiona;
  • sair da indiferença que endurece o coração;
  • sair da acomodação espiritual que enfraquece o ardor missionário.

Como recorda São Paulo: “Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não em razão de nossas obras, mas por sua própria determinação e graça” (2Tm 1,9). A fé autêntica, portanto, não é estática; ela nos coloca em movimento (cf. Tg 2,17).

2. Subir: A experiência da intimidade com Deus

O Evangelho relata que, seis dias após anunciar sua paixão (cf. Mt 16,21), Jesus tomou Pedro, Tiago e João e “os levou, a sós, a uma alta montanha” (Mt 17,1). Ali, “foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas vestes ficaram brancas como a luz” (Mt 17,2).

A glória é revelada após o anúncio do sofrimento, ensinando que cruz e glória não são realidades opostas, mas dimensões inseparáveis do mesmo mistério (cf. Lc 24,26).

Na tradição bíblica, a montanha é lugar privilegiado de encontro com Deus (cf. Ex 24,12; 1Rs 19,8-13). Subir simboliza buscar intimidade, silêncio e escuta. Durante a Quaresma, somos chamados a intensificar a oração (cf. Mt 6,6), a escuta da Palavra (cf. Rm 10,17) e o recolhimento interior. Sem essa experiência, a cruz pode parecer escândalo (cf. 1Cor 1,23); com ela, torna-se caminho de transformação.

A presença de Moisés e Elias (cf. Mt 17,3) indica que a Lei e os Profetas convergem para Cristo (cf. Lc 24,27). Ele é o centro e o cumprimento das Escrituras.

Pedro, tomado pelo entusiasmo, declara: “Senhor, é bom ficarmos aqui” (Mt 17,4). Contudo, a voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5).

O centro da experiência é a escuta do Filho. Escutar não significa apenas ouvir, mas aderir ao seu projeto de vida, acolher o caminho da doação e da fidelidade (cf. Jo 13,34-35).

3. Descer: Viver o que se contemplou

Diante da manifestação divina, “os discípulos caíram com o rosto por terra e ficaram muito assustados” (Mt 17,6). Jesus aproxima-se, toca-os e diz: “Levantai-vos e não tenhais medo” (Mt 17,7).

Quando erguem os olhos, “não viram mais ninguém, a não ser Jesus” (Mt 17,8). Ele é o centro da fé. Em seguida, é necessário descer: “Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes…” (Mt 17,9).

A Transfiguração não representa fuga da realidade, mas preparação para enfrentá-la. A experiência da luz fortalece para a fidelidade no cotidiano (cf. Mt 5,16). Assim, a Quaresma não é alienação espiritual, mas transformação concreta da vida: na família, na comunidade e no compromisso com os mais necessitados (cf. Mt 25,40).

A Transfiguração ensina que a cruz não é derrota (cf. Fl 2,8-11) e que o caminho de Cristo, embora exigente, conduz à vida plena (cf. Jo 10,10).

Neste tempo quaresmal, somos convidados a viver a dinâmica espiritual que brota do Evangelho:

  • sair do que nos afasta de Deus;
  • subir a montanha da oração e da escuta;
  • escutar o Filho amado;
  • descer para viver o Evangelho com fidelidade e compromisso.

Ao final desse percurso, não contemplaremos apenas a luz da montanha, mas a luz definitiva da Ressurreição (cf. Mt 28,6), a glória que não passa (cf. 2Cor 4,17-18) e que dá sentido a toda a peregrinação de fé.

Geraldo Siqueira de Almeida

01 de março de 2026

 

Por: Daiane Sales – Assessoria de Comunicação

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