A Campanha da Fraternidade 2026, iluminada pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), nos convida a contemplar o mistério de um Deus que não estar distante de nós, mas escolheu e permanece escolhendo habitar a realidade humana, assumindo suas dores, fragilidades e esperanças. À luz deste chamado, a Comunidade São Pedro e São Paulo, localizada na linha Santa Terezinha, S/N, setor chacareiro do bairro Jardim Santana, fez da Via-Sacra 2026 um caminho vivo de fé, percorrendo não apenas ruas, mas entrando nas casas, nos lares e nas histórias do povo, tornando visível uma verdadeira Igreja em saída, como tanto insistia Papa Francisco.

Foto da comunidade, algumas pessoas da imagem foram visitadas durante a Via-Sacra.
Ao rezarmos a Via-Sacra no meio do povo, experimentamos que cada estação não é apenas memória da paixão de Cristo, mas uma atualização concreta de seu sofrimento nas realidades de hoje. Cristo continua caindo sob o peso da cruz nas famílias que enfrentam a falta de moradia digna, nas casas marcadas pela insegurança, pela precariedade e pelo abandono. Ao mesmo tempo, Ele se levanta na solidariedade dos vizinhos, na partilha do pouco que se tem, na acolhida simples e sincera de cada lar visitado. A se colocar no lugar do outro, das mulheres, dos projetos que já apoiam a moradia digna para todos, Cristo se manifesta no meio de nós.

A experiência da Via-Sacra nas casas revelou um profundo significado teológico: Deus se deixa encontrar no chão da vida. Assim como Jesus percorreu caminhos marginalizados rumo ao Calvário, hoje Ele percorre os conosco as ruas esburacadas, sem asfalto, iluminação pública, realidade de uma parcela do seu povo que lutam contra a criminalidade das facções. Cada família visitada tornou-se um “lugar teológico”, onde o mistério da encarnação continua a acontecer.
Inspirados pela Evangelii Gaudium (2013), compreendemos que evangelizar é sair ao encontro, é deixar a segurança dos templos para encontrar Cristo vivo no povo. A Via-Sacra, celebrada nas casas, rompeu os muros físicos e simbólicos, transformando a comunidade em um corpo missionário, que caminha junto, escuta, reza e partilha.


Neste contexto, a temática da moradia ganha um sentido ainda mais profundo: não se trata apenas de um direito social, mas de uma expressão da dignidade humana. Onde falta moradia digna, fere-se o próprio projeto de Deus, que deseja que todos tenham um lugar onde viver com dignidade, segurança e paz. Assim, cada estação rezada tornou-se também um clamor profético, denunciando as injustiças e anunciando a esperança de um mundo mais fraterno.

A comunidade São Pedro e São Paulo, ao realizar a Via-Sacra nas casas, testemunha que a Igreja é viva, dinâmica e comprometida com a realidade. Mais do que rezar, a comunidade encarnou a oração, fazendo da fé um gesto concreto de proximidade e amor. Assim, a cruz de Cristo, presente em cada lar visitado, não foi sinal de derrota, mas de esperança, pois aponta para a ressurreição que brota no meio do povo que luta, resiste e acredita.

Que esta experiência continue a ecoar no coração de todos, fortalecendo o compromisso da fraternidade e com a construção de moradias dignas. Como nós ensina Papa Leão XIV na Exortação Apostólica DILEXI TE: “Um permanente desafio e escolher o amor pelos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza- a Igreja deve sempre ser fiel ao coração de Deus.”
Por: Letícia Beilla Vasconcelos de Sá Jesus – Graduada em Teologia pela Faculdade Católica de Rondônia