A experiência da sede constitui uma das imagens simbólicas mais profundas presentes na Sagrada Escritura. Embora se refira inicialmente a uma necessidade física fundamental, a sede adquire nas narrativas bíblicas um significado espiritual que aponta para o desejo mais profundo do ser humano: a busca por Deus, pela verdade e pela plenitude da vida.
A liturgia do 3º Domingo da Quaresma do Ano A apresenta um percurso teológico que parte da experiência da sede no deserto e culmina no encontro transformador com Cristo, fonte da água viva. Tal percurso revela que a história da salvação é, em grande medida, a história da resposta divina à sede humana.
A sede no deserto e a prova da fé (Ex 17,3-7)
A primeira leitura apresenta o episódio de Massa e Meriba, no qual o povo de Israel experimenta a dramática falta de água durante sua travessia pelo deserto:
“Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede?” (Ex 17,3).
A murmuração do povo revela mais do que uma dificuldade material; manifesta uma profunda crise de confiança. A questão central que emerge da narrativa é expressa na pergunta decisiva:
“O Senhor está no meio de nós ou não?” (Ex 17,7).
Trata-se de uma pergunta que atravessa toda a experiência religiosa humana. Diante das provações da história, o ser humano frequentemente se questiona sobre a presença e a fidelidade de Deus. Apesar da incredulidade do povo, Deus responde com misericórdia. Moisés fere a rocha por ordem divina, e dela brota água para saciar a comunidade (Ex 17,6). O episódio revela um traço fundamental da pedagogia divina: a fidelidade de Deus não depende da perfeição humana. A tradição cristã viu nessa rocha um símbolo de Cristo. O próprio apóstolo Paulo afirma:
“A rocha era Cristo” (1Cor 10,4).
Assim, a água que brota da rocha no deserto antecipa simbolicamente a graça que jorrará da pessoa de Cristo.
O chamado à escuta e à conversão (Sl 94[95])
O Salmo 94(95) retoma o episódio do deserto e o transforma em exortação espiritual dirigida às gerações posteriores. O refrão litúrgico apresenta um convite permanente:
“Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor.”
O salmista recorda os acontecimentos de Massa e Meriba para advertir contra o perigo da dureza de coração, isto é, da resistência interior à ação de Deus. Nesse sentido, a memória do deserto torna-se verdadeira catequese espiritual. O passado de Israel converte-se em advertência para o presente da comunidade crente. No contexto da Quaresma, esse convite adquire um significado particular. Trata-se de um tempo privilegiado de escuta da Palavra, conversão e renovação da fé.
O amor de Deus derramado nos corações (Rm 5,1-2.5-8)
A segunda leitura introduz uma perspectiva explicitamente cristológica e soteriológica. São Paulo afirma que:
“Justificados pela fé, estamos em paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5,1).
A justificação não é fruto de mérito humano, mas dom gratuito da graça divina. O apóstolo utiliza uma imagem particularmente sugestiva:
“O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).
A expressão “derramado” evoca abundância e plenitude, sugerindo a superação da sede espiritual humana pela ação do Espírito. O ápice desse amor manifesta-se no mistério da cruz:
“A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).
A iniciativa da salvação pertence inteiramente a Deus. A graça precede e sustenta toda resposta humana.
O encontro com Cristo, fonte de água viva (Jo 4,5-42)
O Evangelho apresenta o célebre encontro entre Jesus e a mulher samaritana junto ao poço de Jacó. O diálogo inicia-se com um pedido simples:
“Dá-me de beber” (Jo 4,7).
A partir desse gesto cotidiano, Jesus conduz progressivamente a mulher a uma revelação mais profunda:
“Quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede” (Jo 4,14).
A água viva simboliza a vida nova comunicada por Cristo, fruto da ação do Espírito Santo. Trata-se de uma realidade interior que transforma profundamente a existência humana. Durante o diálogo, Jesus revela aspectos da história pessoal da mulher. Contudo, essa revelação não possui caráter de condenação, mas de libertação. O encontro com Cristo gera transformação interior e abre caminho para uma nova identidade.
O sinal visível dessa mudança é o gesto simbólico de abandonar o cântaro (Jo 4,28). Aquilo que antes representava sua busca cotidiana deixa de ser central, pois ela encontrou a verdadeira fonte. A mulher torna-se então missionária:
“Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz” (Jo 4,29).
O testemunho pessoal conduz muitos samaritanos à fé, que culmina na profissão:
“Este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4,42).
Implicações pastorais para o tempo quaresmal
As leituras deste domingo oferecem importantes pistas para a reflexão pastoral. A sede presente nas narrativas bíblicas continua profundamente atual na experiência contemporânea. O ser humano continua a manifestar uma sede profunda de sentido, de amor, de verdade e de Deus. Muitas vezes, porém, procura saciar essa sede em fontes incapazes de oferecer plenitude.
Nesse contexto, a missão da Igreja consiste em conduzir as pessoas à verdadeira fonte da vida, que é Cristo. O Magistério da Igreja tem reiterado essa realidade. O Papa Francisco recorda:
“O coração humano tem sede de Deus, mesmo quando não o sabe ou quando procura saciar essa sede em tantas outras fontes” (Francisco, Audiência Geral, 24 de outubro de 2018).
A evangelização consiste precisamente em ajudar cada pessoa a descobrir que Cristo é a resposta às inquietações mais profundas do coração humano. A narrativa da samaritana revela ainda que o encontro pessoal com Cristo gera dinamismo missionário. Quem experimenta a água viva do Evangelho torna-se naturalmente testemunha da graça recebida.
Considerações finais
O itinerário espiritual proposto pela liturgia do 3º Domingo da Quaresma revela que a história da salvação é marcada pela fidelidade de Deus diante da sede humana. Do deserto de Israel ao poço de Jacó, Deus continua oferecendo a água que sacia o coração humano. A Quaresma apresenta-se, portanto, como tempo favorável para retornar à fonte, redescobrir a presença de Cristo e permitir que o Espírito Santo renove interiormente a vida dos fiéis. Se o coração permanecer aberto à voz do Senhor, como exorta o salmo, a promessa de Cristo continuará a ecoar na vida da Igreja:
“Quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede” (Jo 4,14).
Pe. Geraldo Siqueira de Almeida
06 de março de 2026
Referências
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. Brasília: CNBB, 2018.
FRANCISCO. Audiência Geral, 24 de outubro de 2018.
CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum. Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina. Vaticano, 1965.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.
Por: Daiane Sales – Assessoria de Comunicação