Porto Velho, sábado, 21 de março de 2026

21/03/2026 .

Da morte à vida no Espírito – Uma leitura teológico-pastoral do 5º Domingo da Quaresma (Ano A)

O itinerário quaresmal alcança, no 5º Domingo, um ponto culminante de preparação para o Mistério Pascal. A Liturgia da Palavra deste dia (Ezequiel 37,12-14, Salmo 129(130), Romanos 8,8-11 e João 11,1-45), oferece uma progressiva e coerente revelação do Deus da vida, que intervém na história humana para libertar, restaurar e conduzir à plenitude.

O relato da ressurreição de Lázaro, no Evangelho segundo João, constitui o eixo da reflexão de toda a liturgia, iluminando as demais leituras e revelando a ação salvífica de Deus como verdadeira passagem da morte à vida. Este sinal não é apenas um prodígio extraordinário, mas uma manifestação antecipada da Páscoa de Cristo, fundamento da esperança cristã.

A promessa de vida no contexto da morte

A profecia de Ezequiel 37,12-14 insere-se no drama do exílio babilônico, experiência de desolação e “morte” coletiva do povo de Israel. A imagem das sepulturas abertas expressa a soberania de Deus que recria e restitui a vida ao seu povo: “Porei em vós o meu espírito, para que vivais” (Ez 37,14).

Teologicamente, evidencia-se a centralidade do Espírito como princípio vital e restaurador. A vida nova não é conquista humana, mas dom gratuito de Deus. À luz dessa Palavra, a ação pastoral da Igreja é chamada a tornar visível essa esperança nas realidades marcadas pela morte social, falta de moradia, exclusão e desânimo, anunciando que Deus continua abrindo sepulturas na história.

A espiritualidade da espera e da confiança

O Salmo 129(130) traduz a atitude interior do povo que, do fundo de sua miséria, clama ao Senhor: “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor”. Trata-se de uma oração penitencial que une reconhecimento do pecado e confiança na misericórdia.

A imagem do vigia que espera pela aurora (cf. Sl 129,6) revela uma esperança vigilante e perseverante. Esta é a espiritualidade própria da Quaresma: uma espera ativa, sustentada pela certeza de que “no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção” (cf. Sl 129,7).

Como recorda Papa Francisco, a esperança cristã não nega a escuridão, mas se firma na fidelidade de Deus, que nunca abandona o seu povo, mesmo nas noites mais densas da existência.

A vida segundo o Espírito

Na carta aos Romanos 8,8-11, São Paulo apresenta uma profunda antropologia teológica, marcada pela oposição entre “carne” e “Espírito”. Viver segundo a carne significa fechar-se à graça; viver segundo o Espírito é deixar-se habitar por Deus.

O apóstolo afirma: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, então aquele que ressuscitou Cristo Jesus vivificará também os vossos corpos mortais” (Rm 8,11). Esta afirmação fundamenta a esperança cristã na ação atual do Espírito Santo, que já opera no presente a vida nova da ressurreição.

Pastoralmente, isso implica promover um caminho de fé que conduza à experiência concreta do Espírito, superando uma religiosidade meramente formal e favorecendo uma vida transformada pela graça.

Jesus, a Ressurreição e a Vida

O Evangelho de João 11,1-45 apresenta uma das mais altas revelações cristológicas: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Em Jesus, a vida divina entra na história e confronta o drama da morte.

Três dimensões merecem destaque:

  • A humanidade de Cristo: “Jesus chorou” (Jo 11,35) revela um Deus que não é indiferente, mas que participa da dor humana.
  • A pedagogia da fé: o diálogo com Marta conduz à profissão de fé — “Eu creio que tu és o Cristo” (Jo 11,27) — mostrando que a fé ilumina o sofrimento sem suprimi-lo.
  • O sinal da vida nova: a saída de Lázaro do túmulo antecipa a vitória pascal e manifesta a eficácia da Palavra de Cristo, que chama à vida.

Desatai-o e deixai-o caminhar (Jo 11,44)

A ordem final de Jesus introduz uma dimensão eclesial essencial: a vida nova, embora seja dom de Deus, requer a mediação da comunidade. Cabe à Igreja colaborar na libertação integral da pessoa, ajudando-a a remover tudo aquilo que ainda a prende à morte.

Essa missão encontra profunda ressonância no magistério do Papa Francisco, que insiste na necessidade de uma Igreja “em saída”, próxima das feridas humanas e comprometida com a dignidade da vida.

Pastoralmente, isso se concretiza em:

  • práticas efetivas de reconciliação e inclusão;
  • uma espiritualidade encarnada, sensível ao sofrimento humano;
  • o fortalecimento da comunidade como espaço de acolhida e de vida nova.

A unidade das leituras deste domingo oferece uma síntese luminosa da esperança cristã: Deus é aquele que abre sepulturas (cf. Ez 37), escuta o clamor do seu povo (cf. Sl 129), comunica o seu Espírito (cf. Rm 8) e, em Cristo, chama à vida nova (cf. Jo 11).

A ressurreição de Lázaro não é apenas memória de um milagre passado, mas anúncio de uma realidade presente: Cristo continua a chamar cada pessoa e cada comunidade — “Vem para fora!” (Jo 11,43).

Assim, a Quaresma revela-se como tempo privilegiado de conversão e renovação, no qual o Espírito Santo conduz o povo de Deus da morte à vida, da escuridão à luz, da desesperança à confiança.

Como afirma o Papa Francisco, “a ressurreição de Cristo contém uma força de vida que penetrou o mundo” (Evangelii Gaudium, 276). É essa força que sustenta a missão da Igreja e renova continuamente a esperança do povo de Deus.

Pe. Geraldo Siqueira de Almeida

18 de março de 2026

 

Referências Bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. Brasília: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, 2019.

Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Vaticano, 2013.

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Missal Romano. 3. ed. típica para o Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2019.

 

Por: Daiane Sales – Assessoria de Comunicação

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