Porto Velho, sábado, 18 de abril de 2026

18/04/2026 .

Do caminho à mesa – Reflexão para 3º Domingo de Páscoa (Ano A)

A liturgia da Palavra do terceiro Domingo da Páscoa (Ano A), ao articular At 2,14.22-33; Sl 15/16; 1Pd 1,17-21 e Lc 24,13-35, oferece uma síntese teológica e pastoral de grande densidade: o mistério pascal como chave interpretativa da história, das Escrituras e da própria existência cristã. De modo particular, o episódio dos discípulos de Emaús apresenta uma autêntica mistagogia do encontro com o Ressuscitado, estruturada em três momentos fundamentais: o caminho, a Palavra e a fração do pão.

A proclamação querigmática de Pedro estabelece o fundamento dessa fé ao afirmar: “Deus o ressuscitou, libertando-o das dores da morte, porque não era possível que ela o dominasse” (At 2,24). E ainda: “A este Jesus Deus ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas” (At 2,32). Trata-se de uma afirmação de alcance ontológico e salvífico: a ressurreição inaugura uma nova ordem de realidade. Em sintonia, o salmista proclama: “Não abandonarás minha alma na mansão dos mortos, nem deixarás teu fiel conhecer a corrupção” (Sl 15/16,10), revelando que a vitória sobre a morte já estava inscrita no desígnio de Deus.

Contudo, o Evangelho de Lucas mostra que essa realidade não é imediatamente compreendida. Os discípulos de Emaús caminham marcados pela desilusão: “Nós esperávamos que fosse ele quem iria libertar Israel” (Lc 24,21). Essa expressão revela o desencontro entre as expectativas humanas e o projeto divino. A crise que vivem é também hermenêutica: não conseguem interpretar os acontecimentos à luz das Escrituras.

É nesse contexto que se manifesta a pedagogia do Ressuscitado. Jesus se aproxima e os interpela: “Ó insensatos e lentos de coração para crer em tudo o que os profetas falaram!” (Lc 24,25). E, “começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,27). A Palavra precede o reconhecimento: é à luz do mistério pascal que as Escrituras se tornam plenamente inteligíveis.

O efeito dessa escuta é profundamente transformador: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). Trata-se de uma experiência interior em que a graça ilumina a inteligência e inflama o coração, fazendo da Palavra não apenas um discurso, mas um acontecimento de salvação.

O reconhecimento pleno do Ressuscitado acontece no gesto da fração do pão: “Quando estava à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu. Então os olhos deles se abriram e o reconheceram” (Lc 24,30-31). Este gesto remete diretamente à Eucaristia, lugar privilegiado da presença de Cristo na Igreja. Aqui se revela a continuidade entre a ceia pascal e a vida da comunidade cristã nascente.

A experiência culmina na missão: “Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém” (Lc 24,33). O caminho de fuga transforma-se em retorno; a tristeza cede lugar ao testemunho. A experiência do Ressuscitado gera dinamismo apostólico, confirmando que toda autêntica vivência pascal é essencialmente missionária.

A segunda leitura amplia esse horizonte ao afirmar: “Fostes resgatados… pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha” (1Pd 1,18-19). E conclui: “Por meio dele, vós tendes fé em Deus… e assim a vossa fé e esperança estão em Deus” (1Pd 1,21). A fé pascal, portanto, não é apenas contemplativa, mas existencial: implica uma vida nova, marcada pela santidade, pela confiança e pela esperança.

À luz disso, o relato de Emaús configura-se como paradigma da vida cristã e da ação pastoral: uma Igreja que caminha com a humanidade, escuta suas dores, ilumina-as com a Palavra, celebra o mistério na Eucaristia e envia em missão. Como recorda o Papa Francisco, trata-se de “aquecer o coração” das pessoas e caminhar com elas, mesmo nas situações mais difíceis (cf. Evangelii Gaudium, 24).

Desse modo, o itinerário de Emaús permanece profundamente atual. Em um mundo marcado por incertezas, ressoa a promessa do salmista: “Tu me ensinas o caminho da vida, junto a ti, felicidade sem limites” (Sl 15/16/,11). No caminho, na Palavra e na fração do pão, o Cristo vivo continua a se deixar reconhecer, reacendendo no coração humano a esperança que não decepciona.

Pe. Geraldo Siqueira de Almeida

18 de Abril de 2026

 

Referências Bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2018.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica. Vaticano, 2013.

FRANCISCO. Desiderio Desideravi. Carta Apostólica. Vaticano, 2022.

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2006.

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