A Palavra de Deus deste domingo nos coloca diante de uma responsabilidade fundamental e, ao mesmo tempo, exigente: não somos responsáveis apenas por nós mesmos; somos também responsáveis uns pelos outros.
Na primeira leitura, Ez 33,7-9, Deus diz ao profeta Ezequiel: “Eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel.”
O vigia é aquele que permanece atento, que percebe o perigo e procura proteger o outro. A missão do profeta não é condenar, mas advertir para que o irmão tenha a oportunidade de mudar de caminho.
Isso também vale para nós. Às vezes, por medo de desagradar, por comodismo ou para evitar conflitos, preferimos ficar em silêncio diante do erro do outro. Mas o silêncio nem sempre é sinal de caridade. Há momentos em que amar significa ter a coragem de falar, corrigir e advertir.
Mas como fazer isso?
O Evangelho, Mt 18,15-20, nos oferece o caminho. Jesus diz: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo.”
Jesus não começa pela exposição pública, pela fofoca ou pela condenação. Começa pelo encontro pessoal. A correção cristã não procura humilhar; procura recuperar. Não procura vencer uma discussão; procura ganhar o irmão.
Por isso Jesus diz: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.”
Essa é a finalidade da correção fraterna: ganhar o irmão, restaurar a relação e reconstruir a comunhão.
E é justamente aqui que podemos acolher uma importante proposta das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil – DGAE 2026–2032. As Diretrizes apresentam três grandes conversões como proposta de caminho pastoral para a Igreja hoje: conversão das relações, conversão dos vínculos e conversão dos processos.
Hoje queremos refletir especialmente sobre a conversão das relações, em sintonia com o Evangelho desta liturgia.
A conversão das relações é o convite para mudar a maneira como nos relacionamos dentro da Igreja e de nossas comunidades.
Não basta termos boas estruturas pastorais, muitos projetos e diversas atividades, se nossas relações continuam marcadas pelo autoritarismo, pelo clericalismo, pela competição, pela exclusão ou pela falta de escuta.
O Evangelho de hoje nos mostra que a comunhão começa pela maneira como tratamos o irmão.
Jesus não manda expor, humilhar ou destruir aquele que errou. Ele propõe aproximação, diálogo, escuta e correção fraterna.
Por isso, a conversão das relações nos pede:
Tudo isso nos faz perguntar: que tipo de relações estamos construindo em nossas comunidades?
Quantas vezes fazemos o contrário do que Jesus ensina! Quando alguém erra, comentamos com outros, julgamos, espalhamos, criamos grupos e, muitas vezes, a última pessoa a saber do problema é justamente aquela que poderia mudar.
A Palavra de Deus nos convida a substituir a fofoca pela conversa, a condenação pelo diálogo e a indiferença pela responsabilidade fraterna.
Também somos chamados a compreender que proteger é uma forma concreta de amar. O cuidado com crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis não é apenas uma questão administrativa; é expressão do Evangelho e da responsabilidade que temos uns pelos outros.
Da mesma forma, nossa comunicação precisa ser instrumento de comunhão. Uma palavra pode aproximar ou afastar; pode curar ou ferir; pode construir ou destruir.
Por isso, a pergunta pastoral que podemos levar conosco é:
Como estamos nos relacionando dentro de nossas comunidades: como irmãos que caminham juntos ou como pessoas que apenas ocupam funções?
São Paulo, na segunda leitura, Rm 13,8-10, nos dá a chave para compreender tudo isso: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” E acrescenta: “O amor não faz nenhum mal contra o próximo.”
Portanto, a correção só é verdadeiramente cristã quando nasce do amor.
Podemos dizer a verdade, mas precisamos perguntar:
Existe uma grande diferença entre corrigir alguém por amor e corrigir alguém por orgulho.
A primeira procura salvar. A segunda procura ferir.
O Salmo 94/95, nos dá uma atitude fundamental: “Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus!”
Antes de querer corrigir o outro, precisamos permitir que Deus corrija o nosso próprio coração. Antes de apontar o caminho para alguém, precisamos perguntar se nós mesmos estamos caminhando por ele.
E o Evangelho termina com uma das promessas mais bonitas de Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles.”
Jesus está presente quando a comunidade se reúne em seu nome. Está presente quando buscamos a reconciliação. Está presente quando duas pessoas, feridas ou divididas, encontram coragem para conversar e recomeçar.
Por isso, irmãos e irmãs, esta Palavra nos deixa três perguntas:
Tenho coragem de ajudar meu irmão quando ele está se afastando do caminho?
Quando preciso corrigir alguém, faço isso com amor ou com julgamento?
Tenho permitido que Deus também corrija aquilo que precisa ser transformado em mim?
E podemos acrescentar uma quarta pergunta à luz das novas Diretrizes:
As nossas relações na Igreja estão ajudando as pessoas a experimentar a fraternidade, a escuta, o cuidado e a comunhão?
Que o Senhor nos dê um coração aberto para ouvir, humildade para reconhecer nossos próprios erros e caridade para ajudar o irmão a recomeçar.
Que nossas comunidades sejam lugares onde ninguém seja simplesmente condenado pelo seu erro, mas onde todos possam encontrar verdade, misericórdia, correção fraterna e oportunidade de recomeçar.
Que a conversão das relações não seja apenas uma expressão pastoral, mas uma experiência concreta em nossas comunidades: mais escuta, mais diálogo, mais participação, mais cuidado, mais fraternidade e menos julgamento.
Porque, no Evangelho, corrigir é uma forma de amar; perdoar é uma forma de reconstruir; cuidar é uma forma de proteger; e permanecer unidos é testemunhar que Cristo está verdadeiramente no meio de nós.