Queridos irmãos e irmãs,
Paz e Bem!
No primeiro domingo após a Páscoa, a Igreja nos convida a contemplar o coração misericordioso de Deus, celebrando a Festa da Divina Misericórdia. Esta não é apenas uma devoção, mas uma verdadeira profissão de fé: cremos que o Ressuscitado é Aquele que vem ao nosso encontro trazendo paz, oferecendo perdão e restaurando a vida. Como nos recordava o Papa Francisco, “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai” — n’Ele, a misericórdia deixa de ser uma ideia e torna-se presença viva, concreta, que toca, cura e recria a vida.
O Evangelho deste dia nos apresenta Jesus que, ao entrar no cenáculo, dirige aos discípulos palavras que atravessam os séculos: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Ele não vem com acusações, nem com julgamentos, mas com misericórdia. Diante do medo, Ele oferece coragem; diante da culpa, Ele oferece perdão; diante das feridas, Ele oferece vida nova.
O crucificado/Ressuscitado mostra as mãos e o lado, sinais de um amor que não recuou diante da dor. Assim, compreendemos que a misericórdia não ignora o sofrimento, mas o atravessa e o transforma.
Celebrar a Misericórdia é reconhecer que Deus nunca desiste de nós. É acolher a certeza de que nenhuma queda é maior do que o seu amor, nenhuma noite é tão escura que não possa ser iluminada pela sua graça. É também reconhecer nossa vocação: em Cristo, somos chamados a nos tornar imagem do Deus misericordioso. A misericórdia não é apenas algo que recebemos, mas um modo de ser que somos convidados a assumir. Como discípulos missionários, somos enviados a tornar visível, no mundo, a ternura de Deus.
A Festa da Misericórdia nos compromete. Não basta receber o perdão de Deus; é preciso também aprender a perdoar, acolher, reconstruir relações e cuidar dos irmãos e irmãs, sobretudo dos mais feridos e esquecidos. A misericórdia, quando acolhida, transforma-se em missão.
Neste ano, iluminados também pela Campanha da Fraternidade, que nos chama a olhar para a realidade da moradia, somos provocados a dar um passo a mais. Não podemos falar de misericórdia sem olhar para tantos irmãos e irmãs que não têm onde morar, que vivem em condições indignas ou são privados do direito básico à habitação. A falta de moradia não é apenas um problema social: é uma ferida que interpela nossa fé e nossa consciência cristã.
A misericórdia, quando autêntica, torna-se compromisso. Ela nos impulsiona a sair de nós mesmos, a construir pontes, a cuidar da dignidade das pessoas, a transformar estruturas injustas. Não há verdadeira experiência pascal sem um coração que se abre ao outro. Em nossas comunidades, especialmente na realidade amazônica, onde tantas vezes a distância, a pobreza e o abandono marcam a vida do povo, somos chamados a ser presença de misericórdia: escutando, acolhendo, partilhando e defendendo a vida. A Igreja é chamada a ser, cada vez mais, casa de portas abertas, onde todos possam experimentar o abraço de Deus.
Neste tempo pascal, deixemo-nos alcançar pelo Ressuscitado que entra em nossas casas e comunidades, mesmo quando as portas estão fechadas pelo medo ou pelo cansaço. Ele continua a soprar sobre nós o seu Espírito e a nos enviar: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). Que possamos, como discípulos missionários, ser testemunhas da misericórdia que cura, levanta e recria a esperança.
Que esta Festa da Misericórdia renove em nós a alegria do Evangelho e nos torne, no mundo, sinais vivos do amor que não condena, mas salva; que não exclui, mas acolhe; que não abandona, mas permanece. Confiemos nossa caminhada à intercessão de Maria, Mãe de Misericórdia, para que ela nos ensine a guardar no coração a experiência do amor de Deus e a levá-la ao encontro dos irmãos.
Com minha bênção e oração,
Dom Roque Paloschi
Arcebispo de Porto Velho
ARQUIVO: Festa da Divina Misericórdia 2026